
Os 80 romances escritos por Agatha Christie (na verdade, 86, se somados aqueles que escreveu com o pseudônimo Mary Westmacott) fizeram dela a segunda maior recordista de vendas de livros no planeta. Ela perde apenas para a Bíblia e fica mano a mano com um certo William Shakespeare. O número é difícil de visualizar: quatro bilhões de volumes.
Nascida há 120 anos, a "Duquesa da Morte" morreu num 12 de janeiro. O ano era 1976. O mercado editorial parece adorar epítetos de efeito e a chamava também de "Rainha do Crime". Mas, no caso de Agatha, o título não era apenas uma jogada de propaganda.
Uma das marcas de suas histórias era sempre a busca pelo culpado. Em inglês, esse tipo de enredo é chamado de whodunit. E os crimes, invariavelmente, têm a ver com assassinato. Veja dois de seus livros mais conhecidos, Assassinato no Expresso Oriente e O Assassinato de Roger Ackroyd. Este é considerado uma obra-prima do gênero policial, por autores importantes como Luiz Alfredo Garcia-Roza, criador do delegado Espinosa e autor de Céu de Origamis.
"Ela era uma autora de uma produtividade inacreditável e, dentro dela, criou livros exemplares, como o do Roger Ackroyd", diz Garcia-Roza. "Ela faz parte do grupo de autores para os quais a solução de um crime é um problema matemático."
Seguindo mais ou menos a linha de Arthur Conan Doyle ao escrever as aventuras de Sherlock Holmes, Agatha investia na qualidade cerebral de suas tramas.
"O maior talento dela era enganar o leitor, disfarçando, criando pistas falsas", diz Iara Tizzot, tradutora e editora da Arte e Letra. Na loja que leva o nome da casa editorial, Iara é responsável pela seleção dos títulos policiais uma de suas obsessões como leitora. "Como professora, conquistei muitos alunos com livros dela", lembra e cita O Caso dos Dez Negrinhos, outro clássico do gênero, mais tarde rebatizado E Não Sobrou Nenhum devido a questões raciais nos Estados Unidos.
Dentro de uma modalidade literária de estrutura rígida, ela conseguiu criar uma fórmula bem resolvida para suas ficções.
"Ela descobriu uma fórmula e ficou com ela", diz o escritor Flávio Moreira da Costa, organizador de várias antologias, entre elas, Crime Feito em Casa, reunindo contos policiais brasileiros. "Seus livros são uma excelente porta de entrada para a literatura. O policial cumpre um pouco isso. Ela sempre atendeu o mercado de maneira eficiente."
A própria Agatha demonstrava estar ciente de sua relação com o público e procurava agradá-lo tanto que chegou a escrever 33 livros para um de seus dois personagens mais conhecidos, o inspetor belga Hercule Poirot. Em 1975, quando ela finalmente o matou, Poirot se tornou o único homem ficcional a ganhar um obituário no jornal The New York Times. Outra figura célebre criada pela autora britânica foi a solteirona Miss Marple.
Um bom adjetivo para definir Agatha May Clarissa Mallowan o Christie veio do primeiro marido, Archibald é inovadora. Ela se estabeleceu como uma escritora de sucesso numa época, o início do século passado, em que as mulheres não eram levadas a sério em quase nada, literatura inclusive.
Depois de trabalhar como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial, organizou sua estreia literária aos 30 anos, quando publicou O Misterioso Caso de Styles, em que apresenta Poirot.
No Brasil, parte de sua extensa bibliografia foi publicada pela Nova Fronteira e pela Editora Globo. Uma vantagem para o leitor brasileiro é que vários títulos fundamentais da escritora estão disponíveis em edições com preços acessíveis.
No cinema e na televisão, sua obra rendeu mais de uma centena de produções. Algumas, se tornaram inevitáveis. Experimente começar (ou rever) dois deles: Testemunha de Acusação (1957), dirigido por Billy Wilder e com Marlene Dietrich no papel principal, e Assassinato no Expresso Oriente (1974), com direção de Sidney Lumet e um elenco sensacional que inclui Ingrid Bergman, Sean Connery, John Gielgud e Vanessa Redgrave.



