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romance

A era dos excessos

Reinaldo Moraes trata do individualismo, do consumo e de outras características do presente no romance Pornopopéia

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Pornopopéia, diferentemente do que o título pode sugerir, não é "apenas" uma epopéia pornô – apesar de a obra trazer, sim, muitas descrições de cenas de sexo. O romance é uma problematização literária a respeito do consumo.

O protagonista, Zeca, "consome" – sexualmente falando – corpos femininos. Chega a transar com quatro mulheres durante uma madrugada. Mas ele não estabelece relações de médio ou longo prazos com essas mulheres (nem com ninguém).

Zeca é um personagem que está em um contínuo agora.

A fome, ou voracidade, do protagonista não tem limites. Ele é viciado em cocaína e faz de tudo para conseguir, e usar, a droga. Também ingere regularmente (muita) bebida alcoólica. Consumir drogas e álcool são os seus principais objetivos, além de entrar em contato com os já mencionados corpos femininos. O "resto" parece não ter muita importância para ele.

Zeca, mais que não-herói ou anti-herói, é um derrotado que não faz nada para modificar a situação em que se encontra. No passado, realizou um único longa-metragem, Holisticofrenia – que o credenciou como artista marginal. O tempo passou, e no presente narrativo, Zeca é um artista paralisado, principalmente pelo "peso" que representou para ele ter sido apontado como promissor – e a "promessa" não irá se realizar (nunca).

O protagonista de Pornopopéia sobrevive dos serviços esporádicos que realiza para o mercado publicitário. Mas, durante as mais de 400 páginas da narrativa, ele está com bloqueio criativo: não consegue elaborar nenhuma ideia viável para um comercial de embutidos de frango.

Zeca, que deve ter mais de 40 anos, ou até mais de 50, pensa apenas em si mesmo, e em como obter satisfação imediata. Entre quitar as despesas domésticas ou pagar meia hora com uma garota de programa, não hesita em escolher a segunda opção. Atrasa o envio de dinheiro para a sua ex-mulher porque precisa, e isso ele necessita o tempo todo, comprar cocaína. Mulher de amigo, para ele, é apenas mulher: se estiver disponível, e aceitar o convite, pode ser a companhia para uma transa rápida, sem compromisso nem futuro.

Reza uma lenda que esse romance teria ultrapassado as mil páginas nas primeiras versões. Outro boato insinua que o autor recebeu um adiantamento milionário para entregar o texto final, depois de algumas modificações e cortes. Independen­temente dessas "histórias", o fato é que Reinaldo Moraes produziu um texto literário excelente, sem nada sobrando, na "medida", como se diz.

Alguém poderá dizer que falar de orgias não é novidade. Outro observador dirá, então, que escrever sobre as desventuras de um loser é praticamente lugar-comum na literatura contemporânea. Alguma voz crítica apontaria, ainda, que uma narrativa que (no texto e nas entrelinhas) revela uma visão desencantada com o mundo é algo tão previsível como o sol nascer, e se pôr, todos os dias.

Mas Pornopopéia é muito mais do que "apenas" a travessia de um derrotado que se entrega a excessos – revelação essa traduzida por meio de um olhar pouco positivo a respeito da existência e das relações entre os humanos.

O livro tem, e isso é preciso salientar, um texto que tende a seduzir todo e qualquer leitor. O som das ruas (das conversas de bar, com óbvias e inusitadas gírias) foi captado, processado e recriado enfim por Moraes – um conhecido frequentador de bares da Vila Madalena, em São Paulo.

Reinaldo Moraes sabe narrar, e prender a atenção (a longa narrativa é dividida em fragmentos, e em cada final há um atrativo que fisga o interlocutor). Ele trata de questões profundas, impasses existenciais, ao mesmo tempo que parece estar "somente" descrevendo nuances do submundo noturno de uma São Paulo contemporânea.

Pornopopéia faz rir, mas – seguramente – induz o leitor a muitas reflexões.

O livro não termina no ponto final.

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Serviço

Pornopopéia. Reinaldo Moraes. Objetiva. 480 págs. R$ 59,90.

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