
Os primeiros capítulos do remake de Ti-Ti-Ti me fizeram lembrar um antigo samba de Chico Buarque, "Homenagem ao Malandro". "Eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais", canta Chico.
A novela Ti-Ti-Ti, que junto com Plumas e Paetês inspira a atual trama das 19 horas da Rede Globo, girava em torno da história de um brasileiro que vivia fazendo bicos e inventando histórias para se dar bem na vida. Luís Gustavo, como Ariclenes Martins, era um adorável malandro paulistano. O ator nunca foi bonito, mas dava uma personalidade incrível ao seu Ari, cheio de lábia e jogo de cintura, tanto que sua ex-mulher, Suzana (na primeira versão, interpretada por Marieta Severo) vivia tendo recaídas. E os espectadores se apaixonaram por ele.
É claro que o Brasil mudou muito e pode-se dizer que uma parcela considerável dos homens anda em crise com seu papel diante das mulheres e da sociedade, mas o Ariclenes do insípido Murilo Benício não dá conta nem de estar neste "não lugar". O argumento do cara que vive tendo ideias mirabolantes continua, mas Benício não consegue passar um milímetro de carisma. É impossível gostar dele ou se identificar. Pelo menos por enquanto. Pode ser que o ator encontre o tom certo de seu personagem, que, ao meu modesto entender, é a alma da novela.
Quando Ariclenes resolve se transformar no costureiro Victor Valentín pelo menos na novela de 1985 , a trama pega fogo, com uma sucessão de pequenas sabotagem politicamente incorretas de ambos os inimigos, situações absurdas, responsáveis por bons momentos de escapismo diante da tevê.
A atual trama, escrita por Maria Adelaide Amaral, a partir da obra de Cassiano Gabus Mendes, não é ruim. Há uma boa adaptação da realidade da moda atual, com aquelas licenças poéticas das novelas. Tenho de confessar que adorei a ideia de Ariclenes empanturrar as modelos de pastel no mercado para sabotar o desfile de Jacques Leclair (Alexandre Borges). O fato realmente faria qualquer Herchcovitch ou Reinando Lourenço surtar.
A maior parte do elenco está afinada, com destaques para o retorno de Malu Mader que na versão original de Ti-Ti-Ti roubou a cena com sua Valquíria , para a sempre exagerada e engraçada Cláudia Raia e participações de Elizângela e Regina Braga em papéis-chave.
O time jovem também vai bem, principalmente o trio Julinho (André Arteche), Osmar (Gustavo Leão) e Marcela (Ísis Valverde), já desfeito com a morte de Osmar. Esse núcleo foi inspirado em Plumas e Paetês.
Aliás, espera-se que a abordagem madura da temática gay, representada pelo casal Julinho e Osmar, não pare por aí com a morte prematura de um dos garotos. Afinal, a teledramaturgia é uma vitrine importante de comportamento na sociedade brasileira.
Mas todo mundo sabe que novelas de moda tendem a tratar os homossexuais com uma afetação exacerbada. Adriano (Rafael Zulu) e o próprio Jacques Leclair já deram pistas de que o clichê vai valer para Ti-Ti-Ti também. Se o negócio é desmunhecar, o Leclair de Reginaldo Faria fazia isso com maestria.
É difícil não ver a novela com uma certa nostalgia. Felizmente, a música-tema de Ariclenes ficou intacta. "A Vida É Dura", com os Demônios da Garoa e participação de Benito Di Paula, é uma crônica do personagem. O tema de abertura, que no passado era interpretado pela banda de pop rock Metrô, agora está na voz de uma Rita Lee quase bossa-nova. Que venham os próximos capítulos e as mancadas do "cara que só fala em se dar bem".



