
Com a mira no foco, mas ao sabor do acaso. Assim vem sendo conduzida a trajetória profissional de Nadja Naira. Em 2010, ela comemora 20 anos, em cena, nos bastidores e mesmo na plateia. Nadja foi praticamente "abduzida" para as artes cênicas, e isso por meio de uma cena.
A década de 1980 pulsava, com muitas encruzilhadas no porvir, e eis que se abre o Teatro Guaíra. Era uma visita, quase guiada. Nadja ficou nas coxias. A imagem do palco, das cadeiras e daquela atmosfera de uma montagem foi o chamado. A partir daquele dia, ela tinha certeza de que na inscrição do vestibular marcaria xis na opção Curso Superior de Artes Cênicas, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), onde entrou em 1990 e de onde saiu com o canudo de bacharel em Interpretação quatro anos depois.
Nadja contabiliza centenas de trabalhos em seu currículo. "Só" enquanto iluminadora são mais de cem. Isso porque desde 1990 teve a ventura de cruzar os caminhos de Beto Bruel, "um dos sujeitos que mais entende de teatro em Curitiba". Com o "mestre", ela aprendeu os segredos de luz e sombra, "e muito mais". No recente Festival de Curitiba, ela assinou a luz do espetáculo Borbulho. Sem falar, é claro, do grupo em que está enredada, para quem produz toda a iluminação.
Na temporada recente de Suíte 1, texto do dramaturgo francês Philippe Minyana, ela não apenas operava a luz, em pleno palco do Teatro José Maria Santos, como sorvia café, ingeria comida chinesa e interpretava uma complexa personagem. A Companhia Brasileira de Teatro, fundada em 1999 por Marcio Abreu, posteriormente atraiu Giovana Soar e Nadja, além de sistemáticos colaboradores. E o norte da trupe está traduzido em uma peça do repertório, atualmente em cartaz: O Que Eu Gostaria de Dizer.
Abreu, Giovana e Nadja garimpam textos com a finalidade de encontrar um discurso que eles mesmos gostariam ter escrito e, acima de tudo, que pretendem enunciar. Assim aconteceu com a produção de Julio Cortázar, que gerou a peça Volta ao Dia... Agora, eles iniciam um mergulho no universo de Paulo Leminski, que deve se traduzir no espetáculo Vida, previsto para ganhar os palcos a partir de fevereiro de 2010.
Amanhã (22), seis atores realizam uma leitura de fragmentos de obras de Leminski na sede da Companhia (Rua José Bonifácio, 135, 1º Andar Largo da Ordem), a partir das 20 horas, com entrada franca. Nessa empreitada, Nadja será atriz. Mas ela costuma se dividir em muitas. Como consegue?
"Vivo esse instante como se fosse o último", diz a atriz, e faz-tudo, durante a entrevista, realizada ontem de manhã, no Setor Histórico. Nadja, que fala gesticulando, conta que o seu filho, Frederico, de 9 anos, já observou que se ela "prender os braços", possivelmente não dirá palavra nenhuma. Reflexo da ascendência italiana? "Um pouco", reconhece. Ela analisa que é o "DNA germânico" o responsável pela sua pulsação, sobretudo pelo pragmatismo que viabiliza essa vida intensa, aparentemente desgovernada, mas com muito foco.
Hoje, se permite dizer não, mas sempre se deixou levar por todo e qualquer convite. Até pela vontade que tem de aprender. "Aprendo com tudo e todos." Nesse momento, uma de suas propostas cênicas, Bolacha Maria, resultado do contato que teve com a obra de Manoel Carlos Karam, percorre pontos da cidade e a interlocução com as crianças tem sido a maior "escola" que ela poderia ter em seu caminho.
Nadja encontrou a obra de Karam pouco antes de ele morrer, em dezembro de 2007, e ficou surpresa com o fato de um autor, "tão inventivo como Cortázar, tão complexo como Borges", viver em sua cidade. Foi paixão imediata. Com o artista vivo, ainda conseguiu realizar a leitura pública Encrenca, título de uma longa narrativa de Karam e semente para que esse Bolacha Maria frutificasse.
A autodenominada "carnívora", que diz ter como programa predileto frequentar churrascarias, optou por saladas e legumes em uma refeição que realizou acompanhada pela reportagem da Gazeta do Povo. Contradição? Ao contrário, apenas talvez um pulsar de acordo com o cardápio, o vento ou o acaso oferece.
Natural de Castro, no segundo planalto, ela migrou para Curitiba em 1985, cidade de onde nunca mais saiu. Considera-se curitibana. Dorme de 8 a 10 horas todo dia. É decidida. Escolheu o teatro e o ziguezague da vida a trouxe até aqui. Para onde vai? Hoje, talvez dê um tempo. Deve brindar com os amigos, e alguns goles de cerveja, o intervalo do feriado. Mas amanhã, bom, ninguém sabe o que amanhã dirá.



