
O poder tido (e experimentado) como afrodisíaco, seduz. Pelo menos é isso que dizem, repetem (e garantem), por aí. Intelectuais e artistas, desde muito, são cortejados, atraídos e, em alguns casos, cooptados pelos aparatos oficiais de estado.
A prática ocorre no Brasil desde a República Velha e atingiu níveis extremos na década de 1930, ocasião em que Gustavo Capanema esteve à frente do Ministério da Educação, tendo Carlos Drummond de Andrade em cargo relevante como espécie de "ímã" para aproximar outros intelectuais da estrutura do Estado Novo assunto estudado por diversos autores, entre os quais o francês Daniel Pécaut, no livro Os Intelectuais e a Política no Brasil: Entre o Povo e a Nação.
Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu, sabe-se lá como e com qual finalidade específica, manter o cantor e compositor baiano Gilberto Gil por cinco anos e meio à frente do Ministério da Cultura. Desde a noite da última quarta-feira, 30 de julho, Gil deixou a pasta, que deve ser ocupada pelo atual secretário-executivo do próprio Ministério da Cultura, Juca Ferreira.
Tempo Rei
Na terceira tentativa de deixar o posto, finalmente, Gil o tropicalista que teve de se exilar durante os anos de chumbo , conseguiu, de fato, sair da Esplanada. Gil, agora, ex-ministro, o mesmo que, em outros tempos, escreveu e cantou: "Não me iludo/ Tudo permanecerá do jeito/ que tem sido", em "Tempo Rei".
Gil, que durante a temporada recente enquanto Ministro da Cultura "abrilhantou" festas oficiais, em outros passados, já havia pensado e dito: "Ô mundo tão desigual/ Tudo é tão desigual/ Ô Ô Ô Ô/ De um lado este carnaval/ de outro a fome total".
Gil fica para a história, mesmo porque já faz parte dela, como um dos mais importantes personagens da Música Popular Brasileira, independentemente de sua participação neste governo.
Quais foram as ações e efeitos de sua performance enquanto Ministro da Cultura? Seria até mesmo possível listar alguns projetos, a exemplo do Cultura Viva que envolve comunidades em atividades de arte, cultura, cidadania e economia.
Mas tudo o que tenha feito e/ ou projetado enquanto subordinado de primeiro escalão do presidente Lula é menor e, sem exagero, insignificante diante das canções que, antes de ser ministro, já havia inserido no imaginário popular brasileiro.
A lista de hits é imensa, e os leitores da Gazeta do Povo, seguramente, devem saber cantar muitas delas: "Realce", "Drão", "Esotérico", "A Paz", "Expresso 2222", "Aquele Abraço", "Refazenda", "Palco" e muitas outras.
Agora, depois de 11 anos sem gravar um álbum de inéditas, Gil está de volta com 16 canções em Banda Larga Cordel, que inclui turnê nacional e apresentação em Curitiba na noite de 8 de agosto, no Teatro Positivo.
O caldo
O título, Banda Larga Cordel, fato consumado, é o mais adequado possível ao conteúdo deste álbum recente de Gil. Diz respeito ao discurso. Gil, autor da maioria das canções, trata de temas urgentes da sociedade contemporânea daí o "banda larga". E faz isso por meio de texto fluente construído em cima e a partir de melodias contagiantes e daí o "cordel".
A canção que empresta título ao álbum trata desses assuntos "cyber e internáuticos" (que Gil já havia flertado no álbum "Quanta", de 1997, com "Pela Internet"): "Diabo do menino agora quer/ Um iPod, um computador novinho/ Certo é que o sertão quer virar mar/ Certo é que o sertão quer navegar/ No micro do menino internetinho/ Netinho baiano, bom cantor/ Faz tempo tornou-se um provedor provedor de acesso/ À grande rede www".
A ameaça do flagelo que é a violência, que se manifesta de diversas maneiras, ganhou um olhar a partir da percepção paterna, em "Os Pais", parceria de Gil com Jorge Mautner: "Os pais, os pais/ Estão preocupados demais/ com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais/ Ou então dos molestadores sexuais".
E um dos grandes temas da arte, que deflagra romances, quadros, peças e outras intervenções, também chegou até o compositor baiano de 66 anos em "Não Tenho Medo da Morte", Gil problematiza o final da existência: "Não tenho medo da morte/ Mas sim medo de morrer/ Qual seria a diferença/ Você há de perguntar/ É que a morte já é depois/ Que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar/ Ainda pode haver dor, hein".
Sonoridades
Mas, além do discurso, o que também se sobressai e está a dialogar com os textos são as sonoridades, afinal, trata-se de canção. Os ritmos brasileiros, misturados, dão o tom e definem este Banda Larga Cordel. Há xote, baião, forró, samba; às vezes, por exemplo, samba tradicional, de raiz, a exemplo de "Amor de Carnaval". Em outros casos, como em "Despedida de Solteira", xote, baião e forro se misturam e o resultado é esse caldo que uns não sabem definir e outros chamam de Música Popular Brasileira. Por sinal, "Despedida de Solteira", promessa de hit, fala do amor de uma mulher por outra mulher: "Nossa cabrita, tão catita, tão bonita/ Depois de tanta desdita havia feita uma opção/ Se casaria com outra linda cabrita, hah!/ Que até bem pouco namorava o meu irmão/ O pau-de-arara do meu pai o que diria disso/ Que ela me disse, disso que ela me disse...".
Palco
Flora, a esposa de Gil, que inclusive administra a carreira do artista, já havia sinalizado, em entrevistas recentes, que tinha dado prazo para o marido deixar o cargo de Ministro da Cultura. E quarta-feira passada a "profecia" da esposa se concretizou.
Ao se despedir da função de ministro, Gil avaliou a sua gestão como positiva. Mas não deixou de lamentar que a comissão de ética o impediu, sobretudo nestes dois últimos anos, de realizar shows enquanto "estava" ministro.
Em meio e durante tais impasses, Gil deve ter cantarolado, talvez, quem sabe?, até mesmo sentado na cadeira de ministro, o texto de uma canção de sua autoria, de outro contexto, mas superatual, "Queremos Saber": "Queremos saber, queremos viver/ Confiantes no futuro/ Por isso se faz necessário prever/ Qual o itinerário da ilusão/ A ilusão do poder".
E, uma vez provado esse néctar, que é o mel (ou fel?) do poder de Brasília, Gil, (ufa!), retorna verdadeiramente à vida cultural.
Quem mais, além de Gil, pode se permitir abandonar o governo e sair verdadeiramente no lucro?
Alma
Agora, mais livre, mais leve, mais solto, Gilberto Gil deve voltar com ainda mais intensidade para o que faz e sabe fazer como poucos, que é subir, e brilhar, nos palcos: "Subo nesse palco/ Minha alma cheira a talco/ Como um bumbum de bebê/ De bebê/ Minha aura calara/ Só quem é clarividente pode ver/ pode ver".
Que assim seja, aqui em Curitiba, dia 8 de agosto, no Teatro Positivo. E onde houver palco. No Brasil. No mundo.
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Serviço
Gilberto Gil. Teatro Positivo Grande Auditório (R. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300), (41) 3317-3283. Dia 8 de agosto, às 21h15. R$ 140 (filas 1 a 15) e R$ 110 (filas 16 a 28). Valores válidos para estudantes, idosos, doadores de um quilo de alimento não-perecível e doadores de sangue com carteira comprobatória.



