
Mario Sabino, de 47 anos, é um dos raros casos de um sujeito que consegue separar, com muita clareza, as suas duas atividades, ambas ligadas diretamente à escrita. Ele é um dos todo-poderosos da revista Veja, mais especificamente, o redator-chefe.
Simultaneamente, mantém uma bem-sucedida carreira de escritor.
O seu livro de estreia, O Dia em Que Matei Meu Pai, saiu em 2004 e já foi traduzido para o francês, inglês, italiano, espanhol e holandês. O Antinarciso, coletânea de contos publicada em 2005, recebeu o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional.
Agora, em agosto, chega ao mercado mais um livro de contos, A Boca da Verdade.
Enquanto jornalista, independentemente das funções de seu alto cargo na revista, Sabino apresenta um texto padronizado, com frases curtas e ágeis como recomendam muitos manuais.
De toda forma, ironia e sarcasmo são "ingredientes" que costumam invadir os textos informativos do jornalista Sabino.
O texto do escritor Sabino é muito diferente. Antes de mais nada, faz emergir, sem nenhum disfarce, a sua visão de mundo. Ele não acredita em nada. Pode ser chamado de niilista. Não tem muita fé no futuro nem nas ações do ser humano.
O título de seu primeiro livro (O Dia em Que Matei Meu Pai) sugere um tema que estaria presente em seu livro de contos O Antinarciso e que também aparece em A Boca da Verdade.
O escritor procura por meio da ficção "matar" o pai, seja cortando toda e qualquer espécie de cordão umbilical e mesmo aparando ou apagando quaisquer raízes.
"Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim", escreveu Sabino, no texto "Uma Palavra", que funciona como posfácio nesse livro recém-lançado e que revela a sua opção estética, a sua visão de mundo: ele não tem expectativa, em relação a ninguém e a nada.
Serviço
A Boca da Verdade. Mario Sabino, Record, 144 págs., R$ 29.



