
A perda da razão diante de situações de desgaste emocional intenso e de instituições controladoras é retratada em dois espetáculos que tangem o absurdo.
Contrações expõe a lógica insana das relações de trabalho. Aquelas que afetam vida pessoal e saúde emocional, em nome de uma determinada noção de competência. Dirigido pela mineira Grace Passô após sua saída do grupo Espanca!, o espetáculo angariou o Prêmio Shell de melhor atriz para a dupla Débora Falabella e Yara de Novaes.
As dinâmicas de dominação estão no centro dos trabalhos do Grupo 3, formado pelas duas atrizes. "Nas outras montagens, essas relações tinham como território o ambiente doméstico. Com Contrações, esse tema se estende para o trabalho e reflete aspectos políticos, econômicos e filosóficos", diz Yara.
Ela interpreta uma gerente fixa e inabalável em sua posição de cobrança. Débora faz a funcionária que se deixa abalar pelas demandas da empresa. A composição de partituras físicas bem definidas é um dos pontos fortes das atuações.
"É como se elas concretizassem dois lados de uma conduta, porque seus desejos não interessam ali. Interessa o quanto são capazes de abrir mão deles", diz Grace. "O mundo está explodindo com sua lógica do capital, suas contradições são mais absurdas ainda que o texto de Mike Bartlett."
Yara identifica o autor inglês como herdeiro do pensamento de George Orwell. "Ele reflete sobre o sistema escravagista operado pelo capitalismo, explicitando suas técnicas de manipulação, algo muito presente e contemporâneo", explica. "E tem musculatura dramatúrgica para associar essa temática aos elementos essenciais do teatro que gostamos de fazer, como personagens, ritmo e extrapolação da realidade."
Conhecida por materializar metáforas em cena (os abacates de Por Elise são emblema disso), Grace Passô elabora sensorialmente o frio das relações. "Alguns efeitos numa encenação ajudam uma obra teatral absurda a sair do plano da imaginação", finaliza a diretora.
Bug
Em Bichado, o encontro entre um veterano da Guerra do Golfo e uma garçonete que perdeu o filho se encaminha para a paranoia. São "dois seres machucados pela vida que acabam desenvolvendo uma relação de substituição emocional e interdependência doentia", define o diretor Zé Henrique de Paula. "Eles se reconhecem, se complementam e depois se destroem."
A peça (Bug, no original) é de autoria do norte-americano Tracy Letts e já foi dirigida no cinema por William Friedkin, sob o título de Possuídos (2006). Friedkin, aliás, recentemente adaptou outro texto de Letts no filme Killer Joe Matador de Aluguel (2011). Se não bastasse, Letts é também roteirista de Álbum de Família, com Maryl Streep e Julia Roberts.
O encenador paulista trata a confusão mental do casal em tom realista, mas cria interstícios de liberdade. "Mergulhamos em mundos de alucinações, com referências ao universo da HQ misturadas a insetos gigantes antropomorfizados e muita música country e pop", conta De Paula.
Sob os diálogos cravados de humor negro, há uma reflexão a respeito da descrença nos governos e nas formas de poder, aliada à perda da privacidade e ao desenfreado avanço tecnológico. "O atrito entre essas duas camadas permite o estranhamento e o riso", diz De Paula.
Bichado fecha uma trilogia sobre a guerra (iniciada com As Troianas e No Coração do Mundo) realizada pelo Núcleo Experimental, enfocando agora a vida pós-combate.




