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teatro

A lógica absurda de Samuel Beckett

Companhia Teatral Gabinete 3 apresenta no Teatro da Caixa o projeto Resta Pouco a Dizer, com quatro peças curtas do irlandês autor de Esperando Godot

Cena de Ato Sem Palavras II: a condição humana em poucos minutos é prova da genialidade de Samuel Beckett | Divulgação
Cena de Ato Sem Palavras II: a condição humana em poucos minutos é prova da genialidade de Samuel Beckett (Foto: Divulgação)

"Pensando bem, a existência humana é ridícula", diz o diretor Fernando Guimarães. Ele e o irmão, Adriano, estudam a obra de Samuel Beckett (1906-1989) há mais de dez anos e apresentam no Teatro da Caixa, neste fim de semana, o projeto Resta Pouco a Dizer.

São quatro peças curtas de Beckett e duas performances escritas pela Companhia Teatral Ga­­binete 3, formada pelos atores Ma­­teus Ferrari, William Ferreira, Vera Holtz, Nathalia Melo e Valéria Ro­­cha, além dos irmãos Guimarães.

O Improviso de Ohio foi escrito para um professor de nome Stanley Gontarski, da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, que admirava o trabalho de Beckett e, depois de tentar encontrá-lo de várias formas possíveis, convidou o dramaturgo a es­­cre­­ver um texto original. Uma adaptação para a tevê britânica mostra o ator Jeremy Irons lendo um livro ao lado de uma figura (ele mesmo) que parece ser sua consciência. "Resta Pouco a Dizer" é uma das frases marcantes da peça.

Ato Sem Palavras II explica a frase de Fernando que abre este texto. Em poucos minutos, a ação resume a existência humana: você nasce, leva uma vida mais ou menos mecânica, mais ou menos triste (ou feliz), e você morre. Aqui, Fernando cita uma das frases de Beckett: "O seu nascimento foi sua morte".

Catástrofe mostra um diretor que orienta um ator. Este é mudo, não pode dizer nada e vai fazendo exatamente o que o diretor manda.

A quarta e última, Balanço, é centrada em uma mulher numa cadeira de balanço. De novo, a existência aparece resumida a poucas palavras precisas – algo que Beckett faz muito. Quando a cadeira de balanço para, a mulher pede (anuncia? pergunta?): mais. E retoma o balanço para uma nova sequência de versos. Em inglês, a musicalidade do texto é hipnótica. Em português, Balanço e as outras três foram traduzidas pela crítica Barbara Heliodora – conhecida por verter ao português as obras de William Shakespeare – a pedido dos irmãos Guimarães.

Já as duas performances elaboradas pelo grupo, inseridas entre as peças (uma delas será apresentada numa televisão no hall de entrada), funcionam como comentários sobre o trabalho do autor irlandês.

Beckett ainda tem a aura de difícil. A noção surgiu quando ele mes­­mo montava suas peças – a mais célebre delas: Esperando Godot – recebidas com reações raivosas e incompreensão generalizada. "Se você prestar atenção, é completamente compreensível", diz Fer­nando, se referindo ao público de hoje.

O autor de Fim de Partida, que tem vários trabalhos publicados no Brasil (a maioria pela Cosac Naify), é identificado como um dos expoentes do teatro do absurdo. A expressão designa peças surreais que permitem muitas leituras e são feitas de diálogos ilógicos na aparência.

Na verdade, pode até ser surreal, mas não tem nada de ilógico. Be­­ckett diz tanto sobre a condição humana e o faz de maneira tão própria que o ideal seria criar uma distinção. Existe teatro. E existe o teatro de Samuel Beckett.

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