
Eleição é, sobretudo, uma escolha. E, numa democracia que se preza, o resultado do pleito deve ser soberano, quando o processo é realizado dentro da conformidade da lei e da ordem. Há 50 anos, os Estados Unidos foram palco de uma das mais acirradas disputas pela Presidência da República na história do país até então. E, graças ao enorme alcance da televisão, já então consolidada como meio de comunicação de massa e presente na maioria dos lares norte-americanos, o enfrentamento, no dia 9 de novembro de 1960, entre o democrata John Fitzgerald Kennedy e o republicano Richard Nixon se tornou um espetáculo midiático acompanhado voto a voto, episódio a episódio, em clima de total suspense.
Havia vários ingredientes melodramáticos no embate. De um lado do ringue, via-se Nixon, de 47 anos, representando o homem comum. Era narigudo, de porte pouco atlético e dono de um tom de voz muito peculiar, algo anasalado. Vice do "presidente-general" Dwight Eisenhower, herói da Segunda Guerra Mundial, Nixon veio de uma família modesta de agricultores do povoado de Yorba Linda, na Califórnia, estado que ele representou no Congresso como deputado (eleito em 1946) e no Senado (1950), onde permaneceu por apenas dois anos, até o pleito presidencial de 1952, quando foi o escolhido para integrar a chapa de Eisenhower.
No lado oposto ao de Nixon estava um príncipe. Sem uma gota de sangue azul de que se tenha conhecimento, mas com toda a aura de personagem saído dos contos de fada. O democrata John Fitzgerald Kennedy, aos 43 anos, mais parecia galã de cinema e de plebeu não tinha mais nada, apesar de sua origem imigrante irlandesa e católica. Filho de um poderoso milionário do estado de Massachusetts e formado em Ciências Políticas e Relações Internacionais na prestigiosa Universidade de Harvard, JFK também fez o percurso Congresso e Senado antes de ser escolhido como o candidato à Presidência.
Azarão, Kennedy tinha como oponente um político obstinado, nacionalista e fervoroso anticomunista, que a seu favor dispunha da enorme popularidade da administração Eisenhower, durante a qual foi cunhado o termo american way of life, exportado tanto pela política externa quanto pela indústria cultural do país.
Comparar Nixon a Kennedy, à luz da História, passado meio século, é uma covardia. O primeiro saiu da Casa Branca, em 1974, pela porta dos fundos: após renunciar ao cargo depois do escândalo Watergate. Foi acusado de ter orquestrado um esquema de espionagem num dos quartéis-generais da oposição, instalado no edifício que deu nome ao caso, em Washington, capital do país. Kennedy, assassinado durante visita presidencial à cidade de Dallas, no Texas, em 1963, perdeu a vida para se consolidar como mito da política e do estadismo, talvez um dos mais vivos no imaginário mundial. E uma espécie de modelo de homem público imitado e reverenciado até hoje por candidatos à Presidência, sobretudo por democratas como Bill Clinton e Barack Obama.
A maior tentação do observador mais incauto da história norte-americana, portanto, é destinar a Kennedy o papel de herói e a Nixon o de vilão. Uma simplificação perigosa, próxima do senso comum, embora alguns fatos a sustentem em certa medida.
É imprescindível, entretanto, que se estabeleçam as diferenças que separam esses dois homens, que em novembro de 1960 protagonizaram uma das mais emocionantes eleições de todos os tempos.
Nixon detestava tudo o que Kennedy representava: o esnobismo da Nova Inglaterra, o berço de ouro, as caras e quase inacessíveis universidades da Ivy League que o rival frequentou. Ressentia-se em relação à "facilidade" com que JFK trilhou sua rota em direção ao topo. Para Dick Nixon, como os mais íntimos e chamavam, tudo fora tão mais suado e árduo que derrotar o filho de Joseph Kennedy, que teria enriquecido, segundo as más línguas, também graças ao contrabando de bebidas alcóolicas durante da Lei Seca, teria um gosto mais doce, licoroso.
Foi uma luta antológica.








