
Quando o escritor francês Gustave Flaubert foi levado aos tribunais, acusado de ofensa à moral e à religião pelo conteúdo transgressor de seu clássico Madame Bovary, o autor surpreendeu a todos com uma declaração curta e grossa sobre sua protagonista. "Bovary sou eu", afirmou Flaubert ao se referir à personagem adúltera atormentada do romance, hoje considerado o marco inicial do realismo na literatura.
Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana, volumosa e épica obra assinada pelo norte-americano Neal Gabler, em um de seus melhores momentos sugere uma semelhante identificação entre o personagem central da biografia e Branca de Neve, heroína do primeiro longa-metragem de animação produzido na história do cinema e um clássico absoluto da sétima arte.
Para Gabler, Disney e a princesa perseguida e encurralada de Branca de Neve e os Sete Anões (1937) tinham muito em comum. Como sua personagem, o cineasta, um dos ícones da cultura popular americana, cresceu em um lar hostil. O pai, Ellie, não acreditava em sonhos. Apenas em trabalho duro e na morte, fim inevitável de uma existência que não deveria buscar digressões fantasiosas ou esperanças infrutíferas de felicidade. Walter, seu filho mais novo, não concordava. Era um sonhador.
Como Branca de Neve, conta Gabler, Disney desafiou a autoridade paterna e fugiu, ainda muito jovem, para se embrenhar na floresta hostil de um mundo que o fascinava e o assustava nas mesmas proporções, na busca de um caminho apenas seu. Essa trilha desembocaria num mundo de trabalho árduo, sacrifícios e superação, mas também de fantasia, onde Disney se refugiu até a morte, em 1966.
O grande mérito da verdadeira epopéia contida nas mais de 900 páginas de Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana é conseguir não reduzir seu protagonista aos clichês recorrentes nas biografias pré-existentes do criador de Mickey Mouse, que, por sinal, foi pensado, mas não desenhado por ele. Não era apenas o empresário controlador, autoritário e obstinado na missão de construir um império, embora essa faceta seja confirmada por Gabler. Era também um patrão que fazia as refeições com seus empregados, falava de igual para igual com eles. Ainda que fizesse o chão tremer quando brandia suas ordens, dificilmente contrariadas.
Mitos
De cara, o livro desfaz uma lenda infundada: o corpo de Disney, que morreu aos 65 anos, vítima de câncer, nunca foi congelado para uma ressurreição futura. Foi cremado. Quanto a ser anticomunista, tudo leva a crer que, sim, ele não gostava dos vermelhos, muito em sinal de seu patriotismo nunca escondido de ninguém e do clima de polarização ideológica criado por conta da Guerra Fria. Mas não há quaisquer provas de que o cineasta tenha sido antissemita, como muitas vezes foi acusado. Isso fica claro na biografia de Gabler, autor do premiado An Empire of their Own: How the Jews Invented Hollywood (um império só deles: como os judeus inventaram Hollywood; não lançado no Brasil), portanto um especialista em Hollywood e judeus.
É muito pertinente a discussão levantada pelo biógrafo sobre como Disney foi do céu ao inferno para os críticos e a intelectualidade nos EUA. Chegou a ser comparado a Charles Chaplin ao revolucionar o cinema popular com as obras-primas Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Pinóquio (1940), Dumbo (1941) e Bambi (1942) todos filmes nos quais os heróis, escolhidos a dedo, são indivíduos solitários em confronto com a hostilidade do mundo. Mas, de gênio e visionário, seu detratores passaram a considerá-lo um conformista reacionário, ingênuo e ordinário. Isso já no pós-Segunda Guerra, quando o império Disney ramifica-se na televisão, no mercado editorial até desembocar na criação da Disneylândia, parque temático inaugurado em 1955.
O aspecto menos explorado em Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana acaba sendo sua vida familiar depois do casamento com Lillian Bonds, mais velha do que ele e uma das poucas mulheres com quem se envolveu. O autor dedica muitas páginas à infância e juventude de Walt, procurando delinear em detalhes a figura opressiva de seu pai, o rígido e ultrarreligioso Elias, que teria moldado, sem querer, o espírito escapista de Disney. Mas não elabora muito sobre a relação de Disney com a esposa e as filhas, sugerindo que embora as amasse, sua prioridade sempre foram os estúdios. Essa opção impede que a dimensão humana de Disney aflore completamente.
De ruim mesmo a ser apontado na edição brasileira lançada pela Novo Século é a tradução (revisão). Há inúmeros erros de pontuação, gramática e, mais graves, de tradução. Para se ter uma ideia, ao narrar uma viagem de Disney e a mulher pela Europa nos anos 30, o texto conta que, ao chegar na Itália, o casal teve "plateias" com o Papa Pio XI e o ditador Benito Mussolini. Em inglês, a palavra audience também pode ser traduzida como audiência, termo mais adequado no contexto citado acima, não é mesmo?
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Serviço
Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana. de Noel Gabler. Editora Novo Século. 944 páginas, R$ 89,90.






