Entrevista com Gustavo Bitencourt, Michelle Moura, Cristine Bouger e Stéphany Mattanó, integrantes do coletivo de artistas independentes Couve-Flor Mini-Comunidade Artística Mundial
O processo é colaborativo até quando se trata de conceder entrevistas. Gustavo Bitencourt, integrante do coletivo de artistas independentes Couve-Flor Mini-Comunidade Artística Mundial, com sede em Curitiba, encarregou-se pelo grupo de responder às perguntas sobre performance enviadas por e-mail pelo Caderno G.
Alguns colegas também decidiram contribuir com comentários: Michelle Moura, Cristiane Bouger e Stéphany Mattanó enriqueceram a discussão com suas experiências sobre o assunto. Ausentes nesta entrevista, Ricardo Marinelli, Elisabete Finger e Neto Machado completam o coletivo formado em 2004.
De que forma a performance está inserida no trabalho do Couve-Flor?
Gustavo Bitencourt A performance tem sido um dos nossos interesses comuns. Temos integrantes com históricos profissionais bem diferentes. Cada um tem uma trajetória própria de trabalho e interesses focados em diversos campos (vídeo, teatro, dança etc.). Mas partilhamos uma curiosidade por esses terrenos entre as artes, em que não dá para dizer direito se "parece mais com teatro, instalação ou dança". Outro ponto comum é o interesse pelo que eu vou chamar de artes performáticas, que são as que acontecem presencialmente e dependem de um tempo compartilhado entre as pessoas que estão ali enquanto acontece.
Como dança, artes visuais e teatro transparecem e interagem no trabalho de vocês?
Gustavo Bitencourt Dos mais diversos jeitos. A performance sempre está ali, trazendo discussões comuns. Começa entre nós mesmos, alguns com uma história mais forte no teatro, outros há mais tempo trabalhando com dança, com vídeo. Sempre puxando da performance questões para nos intrigar, sobre impermanência, registro, incidentalidade, representação, situação e muitas outras. Acho que o mais importante é que isso nos permitiu desenvolver relações com pessoas muito diferentes em torno dessas questões. Dá pra ver isso em quase todos os nossos trabalhos, essa vontade de reunir músicos, videomakers, atores, coreógrafos, artistas plásticos, em volta de problemas comuns. Essa diversidade incrementa a discussão.
Michelle Moura No projeto O que me Move a me Mover, eu, Elisabete Finger e Gustavo Bitencourt nos lançamos a investigar motivações para nos mover. Utilizamos várias estratégias que resultaram em ações diferentes, inclusive, em diferentes "áreas" ou linguagens. O projeto tem ações mais próximas da dança, por apresentar uma pesquisa de movimentos, passa pelas artes visuais, pois investigamos propriedades específicas de alguns materias como bexigas e o piso de linóleo que cobre o chão do cafofo (sede do coletivo, na Rua Pres. Faria, 266). Também utilizamos a fotografia!
Cristiane Bouger A performance art vem de um histórico de contracultura, de negação do objeto artístico, de negação da representação. Ela foi e talvez ainda seja a mais radical das artes. O corpo é expandido e questionado em todas as suas possibilidades e adjacências: sua politicidade, ritualidade, sexualidade, cultura, carnalidade... A manifestação de um discurso em primeira pessoa dá ao acontecimento da performance um sentido político.
Na performance, o corpo é meio e obra, suporte do discurso em que se consideram questões filosóficas, estéticas, antropológicas, culturais e biográficas. A performance não é espetáculo e não é produto e nesta negativa se inscreve também a sua politicidade. A grande ironia aqui é que o registro da performance passa a constituir, sim, um produto: o livro, a fotografia ou o vídeo da obra.
Como se dá a interação com o público nas performances do grupo?
Gustavo Bitencourt Quando a gente começou a trabalhar junto, dava pra observar uma predominância desse interesse por novos jeitos de lidar com o público (claro que nada é realmente novo). Isso aparecia, por exemplo, em uma performance da Michelle (Moura) em que o público acrescentava ou retirava objetos e roupas do corpo dela; em uma performance minha, em que as pessoas escreviam palavras em papeizinhos, sorteavam, e esculpiam no meu corpo. Hoje, me parece que era um tratamento meio simplista para a questão. Foi se sofisticando. Tanto que, a maioria das nossas produções mais recentes foi elaborada para palco convencional, o público fica sentado, tudo bem certinho. Interagir com o público não é só tocar nas pessoas, mas pensar nesse interlocutor desde que se começa a desenvolver algo, em como isso chega até ele, com que recursos, o que se quer partilhar, em que lugar.
Qual o lugar (praça, museu, rua, palco) em que se desenrola a performance do grupo?
Gustavo Bitencourt - Putz, em todos esses lugares. Como eu falei, ultimamente dá pra observar uma predominância de trabalhos para palco, mas a gente já performou em diversos lugares e vejo que a maioria de nós tem vontade de explorar muitos outros.
Stéphany Mattanó A Web tem sido um território bastante usado pelo coletivo, tanto na organização de ações, quanto suporte para veiculação do que a gente produz.
Como vocês lidam com esta questão do tempo na performance? O registro por meio de fotografias ou vídeo é uma forma de perenizá-la?
Gustavo Bitencourt - Eu, particularmente, não ando acreditando muito na idéia de registro, ou talvez seja preciso mudar o que se entende por essa palavra. Acho que não se registra uma performance, por exemplo, cria-se uma outra coisa a partir da performance. Um retrato de uma pessoa não é a pessoa, mas isso não significa que o retrato não seja importante. Como se dá essa permanência da ação performática acho que tem sido uma das discussões mais recorrentes entre nós, principalmente neste ano.
Em alguns projetos surgiram registros textuais, como quando fazíamos um registro praticamente diário de nossas ações em um blog, durante um processo de colaboração. E podem aparecer vários outros. Me parece que cada idéia pede maneiras diferentes de permanecer em ação no mundo, e isso incide em registros diferentes.
Cristiane Bouger O registro não é a performance. Todo e qualquer registro se torna uma derivação, mas não o trabalho em si. É irônico, porque grande parte do que estudamos sobre performance nos chega pelo filtro do registro, seja ele fotográfico, videográfico ou escrito. Em minha prática sinto esta questão de maneira muito direta porque muitos de meus trabalhos se realizam através do vídeo, o que altera a temporalidade da ação, pelo fato do vídeo ter o seu tempo específico que não é o mesmo tempo do trabalho ao vivo, ainda que estejamos falando de uma mesma duração.
Denomino vários de meus trabalhos de vídeo-performances porque utilizo o suporte do vídeo não apenas pensando em registro, mas considerando que estou performando para o vídeo e utilizando as possibilidades do meio (movimento de câmera, por exemplo) para acentuar certos aspectos do trabalho. Esta opção surge também em favor da realização de algo que não poderia ser performado tão eficientemente ao vivo, seja por questões funcionais, biológicas ou estéticas.
Michelle Moura A performance pode também utilizar outros suportes, e ainda assim, continua sendo uma experiência única, do momento presente. Pode usar o vídeo e a fotografia, para exemplificar duas produções mais recentes do coletivo.
Discreta Prática de Paisagem, realizado por mim e Elisabete Finger, consiste em ações performáticas em paisagens naturais (barranco, plantio, céu) para fotografia. É uma performance que só faz sentido na fotografia. E, nesse caso, a fotografia é a própria obra e não o registro de uma performance. A relação com o espaço, as cores, a ficção tudo isso pode ser melhor percebido na fotografia.







