Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Tradição

A meca italiana dos acordeões

A Pigini fabrica cerca de 1,5 mil acordeões por ano, que custam entre US$ 3 mil e US$ 43 mil: auge da produção foi na década de 1950 | Fotos: Stefano Schirato/International Herald Tribune
A Pigini fabrica cerca de 1,5 mil acordeões por ano, que custam entre US$ 3 mil e US$ 43 mil: auge da produção foi na década de 1950 (Foto: Fotos: Stefano Schirato/International Herald Tribune)
Acordeonista no centro de Florença: instrumento surgiu na China, mas popularizou-se durante o século 19 na Áustria e na Itália |

1 de 1

Acordeonista no centro de Florença: instrumento surgiu na China, mas popularizou-se durante o século 19 na Áustria e na Itália

Castelfidardo, Itália - Sofrendo com o fuso-horário, mas determinado, Salomón Salcedo só pensava em caminhar até esta pequena cidade montanhosa, numa abafada tarde de junho, para satisfazer um antigo desejo: comprar um acordeão feito em Castelfidardo.

"Eles são os melhores", afirmou o chileno Salcedo, de 50 anos, funcionário de diretivas para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que começou a tocar o instrumento ainda criança. "Você não os encontra em lojas; eles são feitos sob encomenda", disse ele, que estava aproveitando uma viagem a trabalho para Roma para vir até aqui. "E este é o lugar para vir."

Para algumas pessoas, a ideia de viajar mais de 12 mil quilômetros para uma compra pode soar um pouco extrema. Para os fabricantes de acordeões em Castelfidardo, é algo comum. Pergunte por ali e prepare-se para ser brindado com histórias de delegações de franceses, argentinos e outros aficionados viajando a esta cidade, ao Sul do porto adriático de Ancona, para comprar um pedaço da excelência industrial italiana.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, quando orquestras de acordeões comandavam as festividades de imigrantes italianos nos Estados Unidos, Castelfidardo vendeu dezenas de milhares de seu maior produto.

Elvis "carrasco"

Agora, anos após a guitarra elétrica se tornar o instrumento de escolha na música popular – o povo daqui ainda aponta Elvis Presley e Beatles como seus carrascos econômicos – e a produção de modelos básicos se mover para a Ásia, Castelfidardo continuou mudando seu foco da quantidade para a qualidade.

Isso permitiu que a cidade sustentasse uma indústria essencial, embora numa forma bastante reduzida. "Nossos acordeões são como aparatos personalizados", explicou Francesca Pigini, gerente-geral da empresa que seu avô fundou em 1946. "Para nós, é um prazer e um enriquecimento trabalhar e colaborar com artistas e pessoas que fazem música pela maior parte de suas vidas".

A Pigini é a maior fabricante de acordeões em Castelfidardo, dividindo a produção entre instrumentos feitos sob medida para estilos tradicionais como polcas, valsas ou música ambiente, e um repertório clássico, que cresceu consideravelmente após Tchaikovsky introduzir um trecho de acordeão numa suíte de 1883 – um marco, segundo acordeonistas. A empresa fabrica cerca de 60 modelos, custando de US$ 3 mil a US$ 43 mil.

A Pigini é uma das únicas empresas em Castelfidardo que ainda produz internamente quase todos os componentes, empregando cerca de 40 habilidosos funcionários e produzindo cerca de 1,5 mil acordeões por anos. Salcedo, incidentalmente, pretendia comprar um Pigini.

Origem chinesa

A história de como um instrumento chinês de 5 mil anos, chamado sheng, se transformou no acordeão moderno passa por Viena, onde a primeira patente foi apresentada em 1829, e atravessa diversas cidades europeias. Segundo a sabedoria de Castelfidardo, porém, o acordeão é um sucesso local ligado à engenhosidade de Paolo Soprani, que abriu sua loja em 1863.

Várias histórias contadas aqui romantizam as origens da inspiração de Soprani – incluindo improváveis referências a soldados tocadores de acordeão que lutaram na batalha de Castelfidardo, em 1860, um dos conflitos definitivos contra tropas papais que levaram à unificação da Itália.

Mas Beniamino Bugiolacchi, diretor do Museu Internacional do Acordeão, em Castelfidardo, descarta essas lendas, dizendo que o maior feito de Soprani foi pegar uma atividade artesanal e aplicar estratégias industriais modernas para aumentar o negócio.

A produção em Castelfidardo teve seu pico em 1953, quando quase 200 mil acordeões foram feitos em dúzias de fábricas que empregavam 10 mil trabalhadores. Fabricantes de acordeões em outras cidades italianas também fizeram bons negócios. Hoje, restam apenas cerca de 27 empresas, na maioria pequenos negócios empregando em torno de 300 pessoas – um número que ficou estável nos últimos cinco anos, disse Bugiolacchi. A alta nos custos de produção moveu a vantagem competitiva aos fabricantes primeiro da Europa Oriental e, mais recentemente, Coreia do Sul e China.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.