
Entrevista com o poeta Nicolas Behr
Trinta anos depois dos primeiros livrinhos mimeografados e de uma prisão pelo regime militar por causa deles, o poeta mato-grossense Nicolas Behr vive o auge de sua carreira e com apenas um livro publicado comercialmente. É a coletânea Laranja Seleta (Editora Língua Geral), de 2007, que reúne o melhor das três décadas de atividade do autor e é um dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom, cujo vencedor levará R$ 100 mil reais em outubro. Mas, muito antes do atual sucesso de crítica, Nicolas encontrou seu público com o "best seller" Iogurte com Farinha: rodado em mimeógrafo ainda nos anos 70, o livrinho alcançou a espantosa marca de 8 mil exemplares vendidos no corpo-a-corpo com os leitores de Brasília, cidade na qual se radicou na adolescência e onde, nos anos 1980, militou no movimento ecológico.
Hoje, o poeta sobrevive de um viveiro de plantas. Um "marginal"? "Pode ser politicamente incorreto um poeta admitir isso, mas eu assumo: a permanência é importante", diz o autor, aos 50 anos. Não sem antes revelar o espírito libertário e hedonista da poesia que faz até hoje: "Para mim, a glória é quando um poema meu entra numa camiseta".
Quando você começou a escrever, algumas vanguardas poéticas, principalmente o concretismo, ainda estavam muito presentes. Você lia esses poetas? Fazia tua poesia em função contra ou a favor deles?
Nicolas Behr Nos anos 70, a poesia brasileira estava num beco sem saída: de um lado o concretismo, dogmático, com seus manifestos, e de outro uma poesia muito politizada, a dos CPCs (Centro Populares de Cultura). No sufoco dessas duas vertentes entre uma poesia muito dogmatizada e outra muito ideologizada surgiu a poesia marginal ou "de mimeógrafo", uma poesia mais celebrativa, mais hedonista, mais do prazer, mais libertária também. Um movimento sem manifesto. Foi uma ruptura uma rupturazinha, porque a gente mamou muito na primeira fase do modernismo. Hoje tem o blog, na época tinha o mimeógrafo. Foi um movimento também de assumir a poesia. Eu sou parte de uma geração que escrevia, imprimia e vendia o livrinho quer dizer, zerou a distância entre poeta e público, foi um fenômeno de trazer o poeta de volta à praça, ensinando o poema a falar. Foi importante porque democratizou a poesia, longe daquela coisa da poesia concretista, muito cerebral.
Mas você rejeita o rótulo de "poesia marginal" para os teus textos. O movimento existiu e você se colocou, digamos, "à margem dos marginais"? Ou era cada um por si mesmo?
É uma geração que já nasceu rotulada o bebê já nasceu com nome. Uma coisa carimbada demais. Eu continuo escrevendo, continuo publicando, tem quatro ou cinco teses no Brasil sobre a minha poesia acho que não posso ser chamado de "poeta marginal". A gente era marginal à indústria editorial, mas não dá para viver eternamente em berço marginal. Continuo a vender meus livros, gosto, mas porque tenho uma relação muito orgânica com eles. Estou feliz com essa coletânea. Tive a sorte de encontrar um editor, com quem troquei uns mil ou 1 500 e-mails para fazer o livro. Mas todo poeta teve sua fase marginal até Drummond, com Alguma Poesia, que teve só uns cem exemplares na década de 1930. Todo poeta tem essa fase heróica, que é maravilhosa e deixa saudades.
Pelo menos outros três fatores, além dessa característica não-comercial, poderiam fazer uma obra ser considerada "marginal": ter feito parte da contracultura, a revolução de costumes dos anos 60; pela adoção de uma linguagem "pouco literária", mais coloquial, como a fala cotidiana; ou ainda por atuar politicamente contra o poder naquele tempo, a ditadura. Tua poesia se preocupou com essas coisas?
Fui preso pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) por causa dos meus livrinhos. Só não fui torturado porque já se falava em abertura. Eles achavam que eu tinha um mimeógrafo. Eu participava do movimento estudantil e todos os panfletos lá eram mimeografados, meus livros também. Então foram na minha casa atrás do mimeógrafo, mas não acharam, porque os mimeógrafos ficavam nos cursos supletivos. Eram usados para imprimir as apostilas. Aí, para justificar a ação, me acusaram de "posse de material pornográfico", como se eu fosse um contrabandista de revista sueca! Houve um processo, que o pessoal chamava de "prosexo": enchia o fórum de cabeludos para assistir às sessões do julgamento. Hoje a gente ri, mas foi terrível. A poesia incomodava.
Como você classifica, afinal, a tua poesia?
O pessoal da poesia marginal era muito esculhambado, muito tosco propositadamente, fazia uma poesia tosca, mas elaboradamente tosca. Depois houve um refluxo: uma poesia mais rigorosa e cuidada, com menos arroubos de juventude, a da chamada Geração 90. Aí você pergunta: "O que é a Geração 90?" Ora, é duas vezes a geração de 45! Que foi o quê? Uma reação ao modernismo. Já depois não sei o que veio. Mas o homem é esse classificador quer classificar para entender e dominar. O interessante seria não classificar, não ser classificado. Mas há essa tentativa forçada de rotular.
Voltando às tuas origens, como e por que você começou a escrever? Os "marginais" te ajudaram a começar? Mostraram que era possível?
Eu saí do mato, Cuiabá, com 14, 15 anos, e caí na maquete. Eu era um menino da rua pescava, andava de bicicleta, pulava muro, roubava manga e caí naquela cidade fria, racional, moderna, planejada, autoritária, sem árvores. Isso me angustiava muito, além das angústias próprias do adolescente eu era um adolescente muito angustiado. Comecei a escrever triste, infeliz, querendo me encontrar e ser alguém em Brasília, aquela cidade massificada e massificante. E comecei a publicar e a levar porrada, porque me diziam que o que eu fazia não era poesia. Tudo mimeografado fiz um livrinho, Iogurte com Farinha, que vendeu 8 mil exemplares, meu best seller. Abri meu direito ao discurso meio na porrada mesmo. Mas ainda bem que havia a poesia. Eu vou dizer uma coisa que soa dramática e é dramática: se não fosse a poesia, talvez hoje eu não estivesse aqui. Posso dizer que a poesia me salvou. Ela matou muitos um tabu aqui em Curitiba é falar sobre por que o Leminski se matou. Ninguém fala, mas ele se matou, e eu lamento muito porque conheci bem o Leminski fiquei na casa dele em 1980 e ele poderia estar aí. Mas a poesia também salvou muitos. Eu me sinto salvo pela poesia.
Hoje, o que move a tua poesia?
As pessoas me perguntam: "O que mudou?" Mudei eu, mudou o mundo! Me perguntam quando vai ter outro livro meu como Chá com Porrada por causa dele fui preso. Eu digo: "Cara, outro Chá com Porrada só quando eu tiver 20 anos de novo!" Em 30 anos muita coisa muda e tem que mudar! Hoje eu tenho três filhos adolescentes que olham meus livros e dizem: "Papai, como você era revoltado!" E era mesmo. Eles são tranqüilos. Mas eu estou louco para entrar em crise. É a coisa que eu mais sonho no mundo, rezo todos os dias para isso. Não tem nada melhor. Minha poesia, hoje, está mais doméstica, mas não está domesticada. E o poeta não quer ficar para trás, o poeta quer ser pop. A poesia quer sobreviver. Se eu estou fazendo concessões demais a este nosso tempo rápido, cibernético, de grandes mudanças e turbulências, não sei. Mas a poesia quer permanecer. Para mim, a glória é quando um poema meu entra numa camiseta. Pode ser politicamente incorreto um poeta admitir isso, mas eu assumo: a permanência é importante.




