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Cinema

A realidade estranha do casamento

Entrevista com o cineasta Sam Mendes

Sam Mendes e a mulher, a atriz Kate Winslet, com quem realizou Foi Apenas um Sonho | Sean Masterson/EFE
Sam Mendes e a mulher, a atriz Kate Winslet, com quem realizou Foi Apenas um Sonho (Foto: Sean Masterson/EFE)

Em meio à consagração de sua mulher, Kate Winslet, após a conquista de dois Globos de Ouro, Sam Mendes tenta manter os pés no chão quanto ao futuro de Foi Apenas um Sonho, filme que chega ao Brasil nesta sexta-feira.

Por ele, Kate recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz. O de coadjuvante foi por O Leitor — mas, curiosamente, ela foi indicada ao Oscar apenas por este último, e na categoria de atriz principal. O cineasta viu o interesse por sua obra aumentar com o sucesso de Beleza Americana (1999).

Em entrevista, Mendes fala das motivações por trás de Foi Apenas um Sonho, cuja trama mostra um casal, os Wheeler (Kate e Leonardo DiCaprio), lutando contra uma crise conjugal.

Visualmente, a fotografia de seu filme, assinada por Roger Deakins, evoca a obra do pintor e ilustrador Norman Rockwell (1894-1978), o principal retratista do estilo de vida americano. Essa referência é proposital na história de Frank e April Wheeler?

Sam Mendes – No filme, as referências visuais que consultamos foram documentários sobre a década de 1950 e fotos da época do livro Saul Leiter: Early Color. E isso por um motivo simples: os cineastas pensam que sabem como os anos 1950 foram, mas, na verdade, o que conhecemos são os filmes dos anos 1950. Não é a mesma coisa. Nada me garante que a Inglaterra mostrada num filme da década de 1990 como Um Lugar Chamado Notting Hill seja um retrato fiel da Inglaterra dos anos 1990. Se eu buscasse muitas alusões na construção dos planos, eu faria imagens estilizadas. Aí, estaria criando fetiches em torno dos anos 1950. Até filmar Soldado Anônimo com Roger Deakins, eu desenhava cada storyboard dos meus filmes. Depois dele, aprendi que, quanto menos eu fizer, mais livres os atores estarão.

Calcada em jazz, a trilha sonora do filme parece ter seguido a mesma preocupação. Não se ouvem canções clássicas da época. Até "Wild Is the Wind", que toca no trailer do filme, na voz de Nina Simone, ficou de fora do longa-metragem. Foi um jeito de evitar fetiches?

Você não é o primeiro que me cobra a saída de "Wild Is the Wind". O problema é que o trailer foi feito assim que eu terminei o filme. Não daria tempo de incluir a canção de Nina. Mas, realmente, a idéia foi fugir de canções muito conhecidas e evitar o rock e as melodias pop. Escolhemos grupos mais obscuros como The Ink Spots, que canta "The Gypsy", para embalar uma realidade que deveria parecer encantadoramente estranha. E atual. O livro de Richard Yates (no qual o filme se baseia) começa e termina nos anos 1950. O filme, não. Ele vai, a cada sequência, despindo-se de suas camadas temporais e locais, até deixar só um casal. E o vazio.

O vazio parece ser um tema comum a sua obra, desde Beleza Americana, não é? É por isso que a crítica chama seu cinema de existencialista?

Existencialista é um adjetivo que pode ter muitos significados. Eu não sei se o que faço é existencialismo. Talvez Soldado Anônimo o fosse. Aquele filme era (Albert) Camus. Não é por acaso que um personagem aparece lendo O Estrangeiro, de Camus. Se existe uma questão constante no que eu filmo, é o fato de sempre haver uma pessoa em crise, que está perdida, sem algo que a guie. Assim eram Kevin Spacey em Beleza Americana e Tom Hanks em Estrada para Perdição. Como artista, é difícil conceituar as raízes daquilo que buscamos. Veja, eu amei O Lutador (The Wrestler, que rendeu o Globo de Ouro a Mickey Rourke), um filme simples, emocionante, que traz um ator no melhor de si. Se um crítico me pedisse para explicar o que me atrai nessa simplicidade, eu não saberia dizer.

Isso veio do teatro?

Claro. Eu gastei milhares e milhares de horas da minha vida, ao longo de quase 40 peças, dirigindo pessoas. Até hoje, o tempo que não uso para cuidar de meus filhos, eu gasto ensaiando teatro (até 8 de março, Mendes estará dirigindo montagens de O Jardim das Cerejeiras e de Um Conto de Inverno no BAM Harvey Theatre, em Nova Iorque). O cinema tem uma agressividade que os palcos não têm. Nas telas, eu busco a linguagem no equilíbrio dos atores com aquilo que fotógrafos como Deakins fazem por mim.

Após Foi Apenas um Sonho, o que podemos esperar de seu novo projeto, já rodado, Away We Go?

Dele, você pode esperar o riso. É a história de um casal (os atores John Krasinski e Maya Rudolph) que tenta escapar, inclusive de si mesmo, e não consegue se desvencilhar do amor. Na literatura de Richard Yates, ao filmar Foi Apenas um Sonho, eu encontrei um olhar pessimista sobre o mundo. Meu olhar é um pouco diferente disso.

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