
O recém-lançado Nheengatu é uma espécie de álbum de estreia para os Titãs de hoje. Desde o lançamento de seu último disco de inéditas, Sacos Plásticos, em 2009, os músicos tiveram de se reinventar como banda. Depois de reconfigurações anteriores, provocadas pela saída de Arnaldo Antunes, em 1991, pela morte de Marcelo Fromer, em 2001, e pela saída de Nando Reis, em 2002, foi a vez do baterista Charles Gavin deixar o grupo em 2010. Restou aos remanescentes se reorganizarem de novo, desta vez abrindo mão dos músicos contratados Lee Marcucci (baixo) e André Fonseca (guitarra). Reforçados pelo baterista Mário Fabre, Paulo Miklos assumiu a guitarra e Branco Mello passou a tocar o baixo.
"Sentimos que tínhamos que recuperar o início da nossa carreira, cada um pegando um instrumento sem tocar direito e ir criando nossa linguagem", conta Bellotto, em entrevista por telefone para a Gazeta do Povo. "Chegou num ponto em que conseguimos recuperar esse espírito de uma banda de rock. Foi uma recriação", diz.
A formação, completada por Sérgio Britto, se consolidou ao longo das turnês Futuras Instalações, em 2011, que testou algumas ideias para um disco novo, e Cabeça Dinossauro, que celebrou o LP mais cultuado do grupo paulista em 2012. A fúria do álbum de 1986 mostrou algumas direções para o que seria o Nheengatu. "Há algum tempo vínhamos percebendo que a percepção que as pessoas estavam tendo do nosso trabalho era a de que havíamos abandonado o rock pesado e o discurso radical para trabalharmos em formatos que tinham músicas mais lentas", diz o guitarrista. "O sucesso inesperado da turnê do Cabeça comprovou que a ideia principal que têm da gente é a de uma banda de rock pesado", conta.
O novo disco reedita a sonoridade seca e pegada punk para canções que apontam novamente para instituições como a polícia (desta vez, tratada do ponto de vista das manifestações que explodiram em junho de 2013) e a religião, em um contexto de críticas contundentes ao Brasil e à sociedade. "Houve quase que uma reavaliação, depois de 20 e poucos anos, com o amadurecimento do país. Algumas questões continuam parecidas, como no caso do poder da igreja, que é até pior hoje com as bancadas religiosas tentando impor um pensamento conservador", diz Bellotto, para quem há uma carência de discurso crítico na música pop brasileira.
"Existe um certo cansaço com esse mercado, atualmente excessivamente comercial. Há uma reclamação das pessoas em geral sobre a falta de consistência do discurso das bandas novas, da música pop atual. O discurso mais contundente e questionador ficou com rap, que não é algo que vaza para o mainstream", diz.
Depois de considerar Liminha, produtor do Cabeça Dinossauro, e Jack Endino, contratado para emprestar a aura grunge ao Titanomaquia em 1993, a banda chamou o produtor Rafael Ramos para ajudar a registrar o peso que queria em meio às referências de música brasileira, outro conceito do álbum que surge em canções como "Baião de Dois" e "Mensageiro da Desgraça", que tem elementos de música indígena. É daí que vem o título do álbum, nome da língua geral do Brasil colonial. Combinada com a torre de Babel da capa do disco, o título encontra significado. "Há essa contradição com a torre, destruída por falta de entendimento, dentro dessa ideia de Brasil caótico que vivemos, onde existe essa tentativa de criar algo em comum", explica Bellotto.




