
Adaptar livros é uma prática frequente no teatro contemporâneo. Muitas vezes não funciona. Nem sempre a palavra escrita para a leitura sobrevive à travessia rumo ao palco. São linguagens distintas a colidir num mar revolto, onde o naufrágio é mais do que possibilidade. O ator Guilherme Piva, em seu trabalho de estreia como diretor, resolveu embarcar nessa viagem de risco. Leva como passageira a atriz Inez Vianna, a quem sugeriu a ideia de transformar em peça o romance A Mulher Que Escreveu a Bíblia, do escritor gaúcho Moacyr Scliar.
O resultado dessa empreitada poderá ser visto segunda (23) e terça-feira (24), às 21 horas, no Teatro Paiol, dentro da programação da Mostra Contemporânea do Festival de Curitiba.
A obra assinada por Scliar, imortal da Academia Brasileira de Letras, tem um pressuposto intrigante. Discriminada por ser muito feia, uma mulher recorre a um ex-historiador e terapeuta de vidas passadas para tentar encontrar uma explicação ou compensação para seu sofrimento, Acaba descobrindo que, no século 10 a.C., foi uma das 700 esposas do rei Salomão, monarca dos hebreus. Mas seu destino estava selado: era a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever, algo raro na época. Para aproveitar essa habilidade, o soberano a encarrega de escrever a história da humanidade.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Inez conta que o projeto nasceu de um momento de inquietude. Nome respeitado na cena do teatro musical no Rio de Janeiro, a atriz buscava um desafio. Queria colocar-se à prova em um projeto no qual seus dotes vocais não fossem requisito. Partiu à caça de um texto que lhe permitisse mostrar seu talento para papéis dramáticos. Foi quando Piva a presenteou com um exemplar de A Mulher Que Escreveu a Bíblia, devorado em poucas horas.
Piva e Inez recorreram à dramaturga Thereza Falcão, que adaptou o pequeno romance de Scliar para o palco. Escolhido pela crítica carioca como um dos dez melhores espetáculos de 2007, A Mulher Que Escreveu a Bíblia proporcionou a Inez Vianna a virada que tanto buscava. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao prêmio Shell e permite que use voz, linguagem corporal, expressões faciais e muita entrega emocional para dar vida a uma mulher que são várias num só corpo.
Para a atriz, um dos temas fundamentais tanto na peça quanto na obra de Scliar é a discussão, mais contemporânea do que nunca, do quão as mulheres estão, desde sempre, submetidas a padrões estéticos e comportamentais que lhe sufocam a individualidade e lhe tiram o direito de ser. Gorda, magra, bela, feia, sensual, alta, baixa, feminina ou não. Ao defender a importância da inteligência, da experiência, da perspicácia e da cultura, o texto relativiza a importância da aparência física.
Indagada se conseguiu livrar-se da obrigação de soltar a voz em A Mulher Que Escreveu a Bíblia, Inez Vianna ri. "Não, eu cantarolo em algumas partes." Mas o fato é que a atriz jamais quis afastar-se dos musicais. Apenas renovar-se. Tanto que, atualmente, está em cartaz em São Paulo com o monólogo adaptado do livro de Scliar e com Sassaricando E o Rio Inventou a Marchinha , espetáculo que mostra como as marchinhas de Carnaval retrataram a cidade carioca entre os anos de 1920 e 1970. "É uma loucura estar no palco a semana inteira", diz. Inez está a toda velocidade.
Serviço
A Mulher Que Escreveu a Bíblia. Direção de Guilherme Piva. Teatro Paiol (Lgo. Guido Viaro, s/nº). Dias 23 e 24 de março, às 21 horas. Ingressos a R$ 40 e R$ 20.



