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Fotografia

A sombra de uma dúvida

Imagem clássica feita por Robert Capa na Guerra Civil espanhola pode ter sido encenada

Foto mostra um soldado aparentemente no exato instante de sua morte | Robert Capa/Reprodução
Foto mostra um soldado aparentemente no exato instante de sua morte (Foto: Robert Capa/Reprodução)

Nova York - Depois de quase três-quartos de século, "Morte de um Miliciano", a fotografia feita por Robert Capa na Guerra Civil Espanhola, continua sendo uma das mais famosas imagens de combate de todos os tempos. É também uma das mais debatidas, com uma longa lista de críticos que afirmam se tratar de uma montagem – a foto mostra um soldado aparentemente no instante de sua morte. Agora, um novo livro, de autoria de um pesquisador espanhol, argumenta que a imagem pode não ter sido realizada no lu­­gar, no momento e do jeito como alegam que foi os admiradores e herdeiros de Capa.

Em Shadows of Photography (As Sombras da Fotografia), José Ma­­nuel Susperregui, um professor de comunicação da Universidad del País Vasco, conclui que a foto de Capa não foi tirada em Cerro Mu­­ri­ano, logo ao norte de Córdoba, mas perto de outra cidade, distante cerca de 60 quilômetros dali. Como esse local ficava longe das trincheiras de batalha quando Capa esteve por lá, diz Susperregui, significa que "‘Morte de um Miliciano’ foi encenada, assim como todas as outras fotos tiradas naquele front".

Especialistas do Centro Inter­nacional de Fotografia (CIP), em Ma­n­­­­hattan, onde estão os arquivos do fotógrafo, afirmam que acharam intrigantes e mesmo convincentes alguns dados da investigação de Susperregui. Mas mantêm a opinião de que a imagem vista em "Morte de um Miliciano" é genuína, e sugerem cuidado com conclusões precipitadas. "Em parte, o que complica a situação é que dizem: ‘Mas se não aconteceu ali, e sim lá, então, meu Deus, é falsificação’", disse Willis E. Hartshorn, diretor do centro, numa entrevista. "É um raciocínio que acho que precisa de muito mais pesquisa e estudo para se comprovar."

Susperregui afirma que iniciou sua investigação analisando a paisagem de fundo de outras fotografias da mesma sequência de "Morte de um Miliciano", imagens em que um conjunto de montanhas pode ser visto a distância. Ele, então, enviou a arquivistas e historiadores da região de Córdoba, dentre as fotos da sequência, aquela que apresentava maior nitidez, pedindo que identificassem a paisagem, e acabou recebendo resposta afirmativa de uma comunidade chamada Espejo.

"Não revelei a ninguém que a enquete tinha ligação com ‘Morte de um Miliciano’, pois é um assunto simplesmente muito carregado ideológica e emocionalmente", explicou o pesquisador, em entrevista por telefone de sua casa em Bilbao. "Mas um professor exibiu a foto a uma de suas classes e, imediatamente, um aluno reconheceu o lugar."

A partir das informações de Susperregui, a imprensa espanhola – puxada por El Periódico de Catalunya, um jornal de Barcelona – recentemente enviou repórteres a Espejo. Eles voltaram de lá com fotografias nas quais a linha do horizonte parece quase perfeitamente idêntica à que pode ser vista ao fundo nas fotos de Capa, realizadas em setembro de 1936, menos de dois meses após o início da Guerra Civil Espanhola.

Cynthia Young, curadora do Arquivo Robert Capa no CIP, diz que a nova evidência sugerindo que "Morte de um Miliciano" foi feita em Espejo é "instigante, persuasiva mesmo". A confusão acerca do local da foto, acrescenta ela, pode ter surgido porque Capa "legendou muito poucas de suas imagens" durante essa viagem, sua primeira como fotógrafo de guerra, e "muito possivelmente não se lembrava" onde tirou a fotografia, deixando provavelmente a seus agentes e editores em Paris a tarefa de adivinhar essa informação quando o filme foi revelado. Não se sabe do paradeiro do negativo de "Morte de um Miliciano".

Historiadores espanhóis afirmam que, embora tenha havido intensos combates em Espejo no final daquele setembro, nenhum enfrentamento ocorreu no local no início do mês, quando da passagem por ali de Capa, então com 22 anos, e Gerda Taro, sua colega e companheira. Até "o final de setembro, nem um só tiro foi disparado por aqui, havia apenas os bombardeios aéreos", disse Francisco Castro, um nativo da região que tinha nove anos à época, a El Periódico. "Os milicianos desfilavam pelas ruas e comiam os melhores presuntos da cidade."

Uma explicação alternativa para a origem de "Morte de um Miliciano", que o centro de fotografia nova-iorquino considera plausível, é que Capa não tenha feito a foto "no calor da batalha", nas palavras do diretor Hartshorn, mas durante manobras militares, talvez iniciadas a pedido do próprio Capa, "e então houve um momento em que a batalha começou para valer, e a imagem teria resultado daí". Ele acrescenta: "A suposição sempre foi de que havia um franco-atirador" que acertou o miliciano de longe.

Mas Susperregui contesta essa versão, dizendo que "deve ser inteiramente descartada". Não apenas as linhas de frente dos dois lados mantinham enorme distância entre si e "a precisão da artilharia era muito pequena" para tornar a hipótese viável, como também "não há evidência documental, nem escrita nem visual, da presença de franco-atiradores" no front de Córdoba.

O debate sobre "Morte de um Miliciano" ganha novo fôlego exatamente quando se inaugura no Museu de Arte Nacional Catalão, em Barcelona, uma exposição com quase 300 imagens e anotações de Capa e Taro, já vista anteriormente em Nova York e Londres. As feridas da Guerra Civil até hoje não se fecharam completamente na Espanha, e o governo socialista do país se sentiu na obrigação de sair em defesa de Capa, negando as acusações de montagem da foto, ainda atualmente uma imagem simbólica para a esquerda, que perdeu a guerra para o General Francisco Franco.

"A arte é sempre manipulação, do momento em que se aponta a câmera para um lado e não para outro", disse a ministra da Cultura espanhola, a diretora e roteirista Ángeles Gonzáles-Sinde, depois de visitar a exposição, no mês passado. Mesmo que a nova controvérsia prove que a fotografia é alguma coisa diferente do que Capa e seus admiradores sempre alegaram, sugeriu a ministra, isso não diminui o gênio do fotógrafo.

A primeira contestação embasada sobre a autenticidade de "Morte de um Miliciano" apareceu em meados dos anos 70, no livro The First Casualty (A Primeira Baixa), de Philip Knightley. Mas a aparente identificação, 20 anos depois, do miliciano alvejado, um anarquista chamado Federico Borrell que se sabe ter sido morto em Cerro Muriano em 5 de setembro de 1936, parecia ter encerrado a controvérsia.

Susperregui, no entanto, visitou o lugar e observa que é "uma área de floresta, com árvores velhas de um século", nada a ver com a elevação em campo aberto que aparece na foto de Capa. Seu livro também cita um artigo, publicado em 1937 numa obscura revista anarquista como tributo a Federico Borrell, no qual um companheiro de combates descreve Borrell "disparando de detrás de uma árvore" quando foi morto, e acrescenta que "ainda posso vê-lo estirado atrás daquela árvore que lhe servira de escudo, com o cabelo desgrenhando caído sobre o rosto e um filete de sangue pingando da boca".

Em 1996, a Magnum Photos, agência que Capa ajudou a fundar e por muitos anos ficou sob responsabilidade de seu irmão, Cornell, publicou um comunicado argumentando que a identificação de Correll provava, sem sombra de dú­­vida, que "Morte de um Mili­­ciano" era uma fotografia genuína. A Magnum não respondeu aos pedidos de entrevista sobre as descobertas de Susperregui.

No livro, o autor também especula acerca de outras contradições na versão mais aceita da história. Ob­­serva, por exemplo, que Capa falou em várias entrevistas sobre o miliciano ter sido abatido por uma rajada de metralhadora, e não por uma única bala de um franco-atirador, e também que o fotógrafo deixou relatos muito desencontrados sobre o ângulo que tinha da cena e a técnica usada para obter "Morte de um Miliciano" e outra fotografia, quase idêntica, tirada logo em seguida.

A verdade, diz Hartshorn, diretor do centro de fotografia em Manhattan, é que "se trata de uma história de detetive, e não conhecemos parte essencial dela".

"A especulação é enorme", ele acrescenta, "mas há muito pouco em que se possa confiar e dizer: ‘Isso sabemos’. São simplesmente muitas as variáveis e peças para as quais não há verificação ou prova."

Tradução de Christian Schwartz.

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