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Não ficção

À sombra do chefão

No livro Honra Teu Pai, o jornalista Gay Talese devassa a vida de Bill Bonanno, filho de um dos manda-chuvas da máfia nova-iorquina na década de 1950

Para Talese, há sempre uma boa história relacionada aos personagens “menores” | Renato Parada/Divulgação
Para Talese, há sempre uma boa história relacionada aos personagens “menores” (Foto: Renato Parada/Divulgação)
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Ter um pai virtuoso é incômodo. Ainda mais quando se trilha o mesmo caminho profissional. Comparações e críticas são inevitáveis na esperança de que o filho supere o "mestre". Edinho, filho de Pelé, penou ao assumir o posto de goleiro do Santos. Sempre foi cobrado como se tivesse a mesma categoria do Rei do Futebol. Frank Sinatra Jr. padeceu do mesmo mal. Ao optar pela música, jogou luz em sua voz, apesar de não ter os mesmos brilho, intensidade e carisma do pai. Cantor ou jogador, ambas as profissões seguem esta lei, com reivindicações da opinião pública e imprensa. Imagine-se, portanto, o peso de ser filho de um mafioso.

É sobre isso que o escritor norte-americano Gay Talese, um dos pilares do jornalismo literário, escreve em Honra Teu Pai (Honor Thy Father, no inglês). Nas décadas de 1950 e 1960, fervilhavam notícias nos jornais sobre uma guerra entre os cinco grupos mafiosos existentes em Nova York. Enquanto imputava-se a culpa de atentados e assassinatos aos bandidos ítalo-americanos, Talese questionava: como seria a vida do filho de um chefe da Máfia? O jornalista era assim. Em uma luta de boxe, onde os holofotes estavam sobre o vencedor, o seu foco se voltava para quem perdia o embate. Há sempre uma boa história por trás dos personagens "menores".

Salvatore "Bill" Bonanno, protagonista do livro, não era necessariamente desconhecido. Sua história, contudo, sempre dependeu das escolhas do pai. Um trecho do livro ilustra a relação com Joseph Bonanno, líder do clã. "Quando em companhia do pai, Bill Bonanno parecia perder um pouco de sua segurança, tornando-se mais calado, hesitante, como se o pai estivesse testando severamente cada uma de suas palavras e pensamentos. Parecia distante e formal em relação ao pai, não tomando mais liberdades do que teria com estranhos", conta Talese.

Ser mafioso era sinônimo de riqueza, com implicações à vida pessoal, como a solidão e a distância da família. Os lucros advinham da loteria clandestina e da agiotagem. Nem mesmo peritos conseguiram determinar o tamanho da fortuna da máfia – a maior parte dos chefões administrava empresas legais para justificar as posses. Os recursos não garantiam a Bill o contato constante com a família (a mulher, Rosalie, e os quatro filhos) e o obrigavam a andar com quantias vultosas de moedas para ligações em cabines, evitando ser encontrado pela polícia ou rivais. Criado vendo o pai sumir e aparecer, Bill não desejava o mesmo sofrimento aos filhos pela sua vida dupla.

As dificuldades de Bill se intensificaram graças à intensa cobertura da imprensa, aliada às tentativas da polícia de prender os mafiosos, na chamada "Guerra das Bananas", disputa pela chefia da máfia na década de 1960 em Nova York. Um mafioso não mataria a família do outro, mas voltar para casa era um risco perigoso para se assumir. Tanto a polícia quanto os adversários poderiam estar à espreita. Esse momento coincide com o misterioso desaparecimento de Joseph Bonanno, obrigando Bill, terceiro homem na hierarquia do clã, a assumir o comando.

A obra se destaca pela apuração rigorosa e capacidade de Talese em recriar situações e ambientes vividos pelos personagens retratados, em um jornalismo bem distante do tradicional e que foi denominado "novo jornalismo". Em ordem cronológica, Honra Teu Pai foi escrito depois de Fama & Anonimato (que reúne vários perfis e reportagens) e de O Reino e o Poder (a história do jornal The New York Times, em que Talese foi repórter por mais de uma década). A fama pelo sucesso dos livros associada ao fato de ter conhecido Bonanno quando repórter do Times facilitaram o acesso de Talese a Bonanno e a sua família, que contaram a ele uma história recheada de detalhes.

Não deixa de ser curiosa, contudo, a nítida identificação entre autor e personagem. Os dois têm idades próximas e as­­cendência italiana – Bonanno é herdeiro dos clãs mafiosos nascidos na Sicília, enquanto Talese é filho de um alfaiate italiano. A todo momento, o escritor se coloca no lugar do filho de um dos mafiosos mais conhecidos, questionando como seria sua vida à sombra do pai.

Serviço

Honra Teu Pai, de Gay Talese. Tradução de Donaldson Garschagen. Companhia das Letras, 496 págs., R$ 55.

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