
Um mosaico e as suas várias nuances. É (também) assim que se pode apreender a proposta de Beatriz Bracher em sua mais recente aventura literária, o livro de contos Meu Amor. A escritora prioriza o trabalho com a linguagem. "Serem homem e mulher transformou as palavras em vento carregado de miúdos grãos de areia", enuncia a voz narrativa de "Ficamos por Aqui, para Dizer a Verdade". O conto problematiza a impossibilidade de dois então desconhecidos, ambos com parceiros estáveis, virem a viver algo, mesmo uma experiência fugaz.
Mas, na ficção de Bracher, sobressai algo que está presente na produção de grandes e até pequenos autores, em obras-primas e projetos "falhados": o que interessa é o como se diz. O jeito de escrever, a dicção, é o próprio conteúdo. "Ela tem bossa", seria uma maneira, um tanto leviana, se não superficial, e mesmo até vazia, de adjetivar a performance da autora. Mas que a ficção dela tem balanço e musicalidade, características que a palavra bossa irradia, isso nem se discute é fato.
A autora não tem nem busca um modelo para fazer ficção. Cada tema, em cada conto, é tratado de um jeito. Para recriar nuances de um passado irremediavelmente perdido, ela valeu-se (no breve "Banana-Split") de idiossincrasias e lembranças particularíssimas das personagens: "O vasinho de violetas fica no balcão da lanchonete ao lado do banana-split derretido e intacto".
Bracher consegue intensidade e expressivos efeitos tanto em textos mínimos, de uma única página, como é o caso de "Ele Gostava de Maria", quanto nas narrativas de mais fôlego que compõem o livro.
"Raza", título de um dos contos, é uma cidade (paradisíaca e distante, inatingível até), a Pasárgada utópica, mas há muito desejada por humanos. Esse desejo de evasão torna-se recorrente ao longo do livro, sobretudo quando a violência da realidade, invade o imaginário da autora. "Ficção", conto posicionado praticamente na metade de Meu Amor, é um exemplo: a personagem obriga-se a circular dentro de um carro blindado como solução para continuar segura em meio às artérias de uma metrópole contemporânea, apesar de ela mesma observar que "sem medo não há vida, afastado o mal, o bem se vai, não faço parte, torno-me uma idiota".
A escritora recriou, literariamente, crimes recentes, que ocuparam manchetes de jornais impressos e considerável tempo em noticiário televisivo, como o da adolescente que ficou presa com vários homens em uma delegacia num grotão brasileiro. "Depois de tudo, dos vinte homens e da rua de terra com casas comuns, isso é tocante. E, não é possível dizer por quê, o mais comovente na fotografia é a menina estar usando uma sandália de borracha, dessas de dedo", diz um trecho de "Duas Fotografias sobre o Natural".
Bracher perseguiu e encontrou a sua voz literária que, como já foi dito, é tão ou até mesmo mais importante do que os eventuais enredos que ela desenvolve, uma vez que a dicção tende a impregnar o imaginário do leitor. "A rua é um espaço vazio que percorro no vácuo. O vazio não existe, é desejo vão. Tudo deixa sua marca."
Serviço
Meu Amor. Beatriz Bracher. Editora 34. 142 págs.



