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HQs

A vida em quadrinhos

Companhia das Letras inaugura selo exclusivo do gênero com obras de Will Eisner e Craig Thompson; lista de novidades inclui Art Spiegelman, Marjane Satrapi e Chris Ware

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O traço indefectível de Will Eisner: o mestre dos quadrinhos virou nome de prêmio |

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O traço indefectível de Will Eisner: o mestre dos quadrinhos virou nome de prêmio

Craig Thompson é um dos destaques da nova geração de quadrinistas americanos |

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Craig Thompson é um dos destaques da nova geração de quadrinistas americanos

Economia de traços é uma característica do trabalho de Luen Yang |

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Economia de traços é uma característica do trabalho de Luen Yang

A melancolia das histórias de Will Eisner (1917-2005) é atordoante. Quatro de seus trabalhos estão reunidos em Nova York – A Vida na Cidade Grande, um dos títulos que inauguram o selo Quadrinhos na Cia., criado há pouco pela Companhia das Letras.

A ideia é publicar obras novas de artistas que já saíram pela editora – Art Spiegelman (Maus) e Marjane Satrapi (Persépolis) – e de outros que devem estrear no Brasil nos próximos meses. Desses, o destaque é Chris Ware e o seu Jimmy Corrigan, programado para outubro.

Incluir Eisner na lista de lançamentos é emprestar o prestígio de um gigante para quadrinistas que estão crescendo. Nova York coloca em um volume os livros: Pessoas Invisíveis, Caderno de Tipos Urbanos, O Edifício e Nova York: a Grande Cidade.

Na introdução, o escritor Neil Gaiman (Sandman) assume sua admiração por Eisner e rebate a crítica negativa de "sentimentalismo" que ele recebeu em algum momento da carreira. Eisner, sentimental? Estranho.

A leitura de Nova York marca pela tristeza, pela crueza com que narra pequenas histórias incríveis. É semelhante a conhecer um pouco da vida de alguém no obituário de um jornal. Com o agravante de que, no livro de Eisner, você vê a existência da pessoa passar diante dos olhos, nas páginas, em quadrinhos.

Em "Santuário", um dos três episódios de Pessoas Invisíveis, o protagonista é um sujeito gordo e careca chamado Pincus Pleatnik que vê sua rotina desmoronar, veja só, graças a um obituário equivocado. Quando criança, o personagem sentia conforto de se isolar em locais onde não podia ser encontrado. Sempre que visitas chegavam em casa, seus pais tinham de buscá-lo embaixo da cama.

Pleatnik se esforçou para passar sempre despercebido. Virou o passador de roupas de uma lavanderia, vivendo sozinho em um apartamento alugado. Nunca se casou nem tem familiares ou conhecidos que sejam próximos.

Um dia comum, depois de acordar e comprar o jornal, descobre que o seu nome está entre os mortos do dia. Liga para a responsável pelos obituários e tem uma discussão surreal com ela – uma mulher de meia-idade, metódica, certinha e incapaz de admitir qualquer erro. Na verdade, a confusão começou com a lista fornecida pelas funerárias, mas não é explicada em momento algum.

Pleatnik decide que não vale a pena se preocupar e sai para aproveitar o dia de folga. Em questão de horas, a notícia de sua morte corre e gera uma série de acontecimentos mesquinhos e violentos. No fim, não sobra nada de Pleatnik.

Não importa o quanto se esforce para afastar as coisas que mais teme – solidão, morte, doença, desejo, amor... É só uma questão de tempo para que seus maiores medos arrombem a porta da frente e o tomem de assalto. Isso pode não ser uma verdade universal, mas é uma das regras do mundo criado por Will Eisner.

O Edifício acompanha as vidas de quatro pessoas relacionadas a um mesmo prédio de uma cidade grande, que pode ser qualquer uma, embora a referência de Eisner seja o universo nova-iorquino em que nasceu e viveu a maior parte dos seus 87 anos.

Gilda Green casa com um dentista e segue apaixonada por um poeta, mostrando que o amor acaba, não importa o que se faça dele. Monroe Mensh assume a culpa pela morte de um garoto que o acompanha até o fim. Antonio Tonatti é obrigado a ignorar a paixão pela música e retomá-la depois de um acidente. P. J. Hammond assumiu os negócios do pai, teve todos os confortos do dinheiro, mas não escapou de um desfecho trágico.

O que mais chama a atenção é que todos morrem de maneira melancólica: sozinhos, debilitados e sem amor. No melhor dos cenários, apagam como uma vela que acaba, sem ninguém por perto para testemunhar.

Os outros dois livros, Nova York: a Grande Cidade e Caderno de Tipos Urbanos são coleções de vinhetas que duram poucas páginas (várias têm apenas uma). Na maioria, são narrativas breves e sem palavras. Em geral, usar somente imagens é mais difícil do que contar com palavras para explicar uma situação qualquer. É quando Eisner mostra domínio avassalador da arte. Não é preciso gostar de histórias em quadrinhos para reconhecer seu gênio.

Serviço

Nova York – A Vida na Cidade Grande, de Will Eisner. Quadrinhos na Cia., 440 págs., R$ 55.

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