
O livro Aldir Blanc: Resposta ao Tempo, lançado recentemente pela Casa da Palavra em uma edição recheada de imagens de arquivo, traça um perfil do compositor carioca sem pretensões biográficas. Seu autor, o jornalista Luiz Fernando Vianna, diz não acreditar em "biografia de gente viva, porque a história não acabou", e a compilação de 450 letras incluída no livro confirma: há canções novíssimas da lavra de Blanc, incluindo parcerias com João Bosco, que sequer foram terminadas. Por outro lado, muitas vezes por força do próprio compositor, mais de uma centena delas ficou de fora. "Ele resolveu fazer um corte estético, principalmente das canções dos anos 1960, do início da carreira, que ele achava que não tinham mais valor hoje", conta Vianna.
Se não tem como ser definitivo, o livro tenta jogar luz sobre a formação do gênio responsável por letras como "Amigo É pra Essas Coisas", "Bala com Bala", "Incompatibilidade de Gênios", "De Frente pro Crime", "O Bêbado e a Equilibrista" e "O Ronco da Cuíca", contando passagens surpreendentemente inquietantes de sua vida.
A mãe quase morreu no parto e desenvolveu uma depressão crônica; criado pelos avós, teve uma adolescência difícil no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, onde sofreu o que hoje se chamaria de bullying; já formado em medicina, perdeu duas filhas gêmeas em um nascimento prematuro.
"Na minha opinião, esse tipo de acontecimento forma o tipo de compositor que ele é, como qualquer acontecimento das nossas vidas. A história narrada no livro permite entender mais como se formou essa cabeça peculiar, às vezes um pouco delirante, e sua maneira muito não convencional de fazer música", diz o autor. "As coisas que estão contadas ali, da infância e da adolescência, acrescentam muito, porque são coisas que só as pessoas mais próximas dele sabiam."
Outro registro relevante é o afastamento de 20 anos e a reaproximação entre Blanc e João Bosco, seu principal parceiro, que também dá depoimentos com versões nem sempre consensuais da história.
A motivação para o projeto do livro, além de uma admiração antiga de Vianna por Blanc, seria a participação do compositor nas discussões sobre direitos autorais. "Ele foi um defensor da [ex-ministra da Cultura] Ana de Hollanda contra uma visão, digamos, dominante na área da música e da imprensa, e ficou visto quase como um reacionário, o que seria um contrassenso se você olhar a trajetória dele", defende o autor que, no entanto, não considera Aldir Blanc um compositor menos reconhecido do que deveria. "Talvez a figura dele seja menos lembrada por causa do temperamento recluso dele", diz Vianna. "Mas as músicas continuam tocando por aí."
Confira trecho do capítulo "Linha de Passe", que narra o encontro de Aldir Blanc e João Bosco.
"O local marcado era Ouro Preto, para onde seguiu em uma Kombi a caravana na qual estavam Aldir, Pedro, o compositor Paulo Emílio e o músico Darcy de Paulo. Ao pararem na república em que João morava, receberam o recado de que tinha ido para a casa da mãe, em Ponte Nova. Ele não fizera uma desfeita, mas fugira com medo de ser preso. (...)
A turma da Kombi pernoitou em Ouro Preto e partiu na manhã seguinte, um domingo, para a cidade da Zona da Mata, bem próxima. (...) Depois do almoço, horas de composições inéditas foram tocadas.
Para um letrista, era um deslumbramento ser apresentado àquela monstruosidade: 30 músicas daquele peso recorda Aldir o início da parceria."





