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Quadrinhos

A vida “rídicula” de Adão

Adão Iturrusgarai, cartunista

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"Aos 15 anos, eu queria mudar o mundo. Aos 25, queria mudar minha cidade. Aos 35, queria mudar o bairro. Hoje, mal consigo mudar minhas meias." A piada sobre envelhecer até dispensa o desenho com que Adão Iturrusgarai (Aline) a ilustrou em Momentos Brilhantes de Minha Vida Ridícula, livro que o cartunista gaúcho lança hoje, às 19 horas, na Itiban Comic Shop.

A obra é uma coletânea de tiras e quadrinhos autobiográficos, marcados por uma corrosiva autoironia e desenhados com um traço "tosco" que hoje orgulha o autor. No prefácio, Adão garante que todas as histórias realmente aconteceram, como na tira acima, desenhada exclusivamente para a Gazeta do Povo.

Depois de morar em Paris, São Paulo, Porto Alegre e na Patagônia, Adão hoje vive na pacata Villa Carlos Paz, município da província de Córdoba, na Argentina. Por telefone, do litoral gaúcho, onde passa férias com a família, Adão falou sobre o novo trabalho e o atual momento de sua carreira.

Ao contrário do que previra o garçom francês, a trajetória de Adão está em ascensão. A tradução do livro com as tiras dos caubóis gays Rocky e Hudson (Rocky e Hudson e Outras Histórias, Devir) por uma editora argentina abriu espaço para que o trabalho fosse publicado também na Espanha, Alemanha e, em breve, nos Estados Unidos. Confira abaixo a entrevista com Adão.

Você se expõe bastante e pega pesado consigo mesmo neste livro, não?

É um livro autobiográfico e eu realmente não tenho freios em falar sobre mim. Acho melhor falar sobre o lado ridículo do que enaltecer algum lado bacana.

Todas as situações são reais mesmo?

Eu tenho material para lançar um segundo volume daqui a um tempo. A maior parte das coisas aconteceu. Esta tira inédita que fiz para a Gazeta do Povo parece ficção, mas rolou mesmo.

Mas você edita algumas?

Tem algumas coisas com as quais, há alguns anos, eu me sentiria desconfortável. Mas, com o passar do tempo, o legal é que você não se preocupa mais com isso, já resolveu as coisas na cabeça.

A sua mulher, Laura, também aparece bastante. Ela vê algum problema?

Não ele é desencanada em relação a isso. Ela curte quando eu escrevo sobre ela e sobre o casamento. É legal dividir isso com ela. Ela tem a mesma onda que a minha.

Você trabalha em casa e têm filhos pequenos, você é atualmente é "do lar"?

Sou sim. Fico bastante presente mesmo, mais do que gostaria...

Você era um cara da noite?

Sim, sempre adorei a noite. Mas também sempre gostei de trabalhar, do dia.

Você mudou o seu traço, ele está mais simples em relação a trabalhos passados. Como foi esta transformação?

Me sinto muito satisfeito com o meu desenho hoje em relação a uma época em que ele tinha ficado muito certinho, uns quinze anos atrás. O meu desenho atual era onde eu queria chegar: simplicidade, um traço mais tosco. Como eu trabalho muito com humor de texto, o desenho, às vezes, é um adereço. Estou feliz com o meu traço atual.

É mais engraçado...

Eu também acho. Fica aquele beição, os dentes estragados... Tem gente que diz que é uma involução, preguiça. Mas é tudo bem pensado. O ideal nem sempre é o mais certinho.

Você está morando na Argentina há alguns anos?

Eu moro numa pequena vila pertinho de Córdoba, Villa Carlos Paz. Eu gosto, com os filhos e a trabalheira é melhor morar numa cidade pequena. Sem engarrafamento, poluição. Se você quer resolver algum trâmite, é fácil.

Antes você morava no Sul, na Patagônia...

Morei lá, sim. A família da minha mulher é de lá. Fiz tiras sobre este tempo no livro. Via orcas e pinguins todos os dias. Mas tinha muito vento e nós resolvemos morar num lugar com clima mais ameno por causa das crianças. Dava pena.

Os parceiros gaúchos não te tiram para desertor por estar morando no outro lado da fronteira?

Na verdade, os argentinos nos tratam muito bem. O brasileiro é que trata mal o argentino, tem essa coisa que, na verdade, é uma lenda injusta.

Você tem trabalhado para publicações argentinas?

Trabalho para a revista Fierro, pois tenho cidadania argentina. E eu publiquei o Rocky e Hudson lá. E por conta disso, o trabalho também saiu na Espanha. E veja só que coisa incrível, o Rocky e Hudson e Outras Histórias vai ser publicado também nos Estados Unidos. Já está em pré-venda. Não estamos falando em grandes tiragens ou que eu vá ficar milionário, mas são edições de capa dura, é uma puta realização.

Tem falado com o Angeli e o Laerte?

Sim. Sempre que vou a São Paulo. Somos amigos próximos. Na verdade, o Los Tres Amigos funcionava mais na base da amizade. Eles não me convidaram pelo meu talento, me convidaram porque já estavam de saco cheio e queriam um entretenimento, uma carne nova, um guri de bunda pelada.

Você faz um trabalho politicamente incorreto até os ossos? Alguém já te patrulhou com isso?

Não andam pegando muito no pé com quadrinhos. Por causa desse pessoal do stand-up, que começou a fazer humor pesadão, deixaram a gente em paz . O que é ótimo! Estamos acobertados.

Qual foi o quadrinho que mudou a sua vida?

O livro de tiras da Rê Bordosa (Angeli), a primeira coletânea no meio dos anos 1980. Isto foi impactante.

Você acha que caras como o Angeli, se não escrevessem numa língua periférica, poderiam ombrear os grandes humoristas do mundo?

Claro que sim. Eu, que estou alguns degraus abaixo, sou um exemplo: tive que publicar o Rocky e Hudson em Buenos Aires para que ele pudesse correr o mundo. Em português, não teria rolado.

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