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Cênicas

A visão dos outros sentidos

A desCompanhia de dança estreia hoje novo espetáculo no Teatro Cleon Jacques, no qual se propõe a descondicionar o olhar

Feche os Olhos para Olhar: os bailarinos Juliana Adur, Yuki Doi e Peter Abudi exploram a percepção | Elenize Desgeniski
Feche os Olhos para Olhar: os bailarinos Juliana Adur, Yuki Doi e Peter Abudi exploram a percepção (Foto: Elenize Desgeniski)

Ao estrear Feche os Olhos para Olhar daqui a algumas horas, no Teatro Cleon Jacques, em Curitiba, a diretora Cintia Napoli espera provocar o olhar do público tanto quanto foi feito com o da desCompanhia de dança no processo de criação.

Na dança contemporânea, não dá para falar de um espetáculo só a partir do que se verá sobre o palco: o processo é fundamental. E o de Feche os Olhos para Olhar, contemplado pelo edital de produção em dança da Fundação Cul­­tural de Curitiba, começou dentro de um projeto chamado A Poética do Olhar (registrado no blog apoeticadoolhar.blogspot.com), num constante diálogo com a filosofia, a literatura e as artes visuais.

Norteada pela fenomenologia de Merleau-Ponty, a companhia entendeu que a percepção do mundo não se limita à visão, de­­pende do corpo inteiro. "O olhar do qual falamos é o dos sentidos. São os pontos de vista que se tem de uma situação, a perspectiva de cada um", explica Cintia Napoli. "Por isso, Feche os Olhos para Olhar: trata-se das possibilidades de como completar esse olhar."

Tal orientação fenomenológica está entre os interesses da desCompanhia há quatro anos, e pautou também os estudos da montagem anterior, Lugares de Mim, embora a tradução estética a que se chegou então fosse outra. "Aquele espetáculo acontecia dentro de um recorte fotográfico e tinha uma organização determinada das cenas. O Feche os Olhos para Olhar tem uma porosidade maior e o espectador está muito mais próximo e ativo", compara a diretora.

Ver o ver

A literatura forneceu outros indícios ao processo criativo. No ano passado, conta Cintia, todo o grupo foi ver a exposição Elogio ao Silêncio e Outras Fábulas, do paulista Sérgio Fingermann. Ao lado das obras, ele expunha poemas sobre o vazio, o silêncio e o olhar. "Uma das poesias deu o impulso criativo para quase todo nosso trabalho", diz a diretora. Ela cita os versos: "Ver em estado puro/ Ver o ver/ Ver o que é anterior à vontade".

Houve ainda uma inspiração declarada em Paul Klee, e na capacidade do pintor suiço de lidar com o espaço entre o real e o imaginário. Também na noção de descondicionamento do olhar proposta pelo fotógrafo Cláudio Feijó – o que demanda atenção sobre o trivial e o rotineiro. Com a atenção redobrada, propuseram-se então a "ver o ver".

Perspectivas

Todas essas influências foram filtradas pelos desejos de cada integrante, enquanto outros artistas, de fora, contribuíam com novos olhares. Elenize Desgeniski, a fotógrafa, concebeu uma videoexposição, que acompanhará a temporada. A cantora Edith de Camargo foi decisiva na criação da dramaturgia, ao mesmo tempo em que produzia a sonoplastia com ruídos, intervenções sobre uma gravação em off do poema de Fingerman e uma composição ao piano.

Responsável pelos figurinos, Eduardo Giacomini explorou o estranhamento, essencial para descondicionar o olhar. Inseriu cor viva na sobriedade, entre outros elementos pontuais planejados para despertar a atenção. Já o iluminador Fernando Dourado trabalhou com luz e sombra, desenhando perspectivas.

"A crueza permeou a criação", diz Cintia. Projeções recobrem parede ou teto apenas acrescentando texturas. O linóleo foi dispensado em favor do chão de madeira: "um lugar simples e cru, para possibilitar o olhar mais puro", comenta a diretora.

Os três bailarinos em cena vêm de experiências divergentes. Juliana Adur se formou em Educação Física, Yuki Doi é designer e Peter Abudi fez faculdade de dança. Essas diferenças interessam à diretora, que se exime de tentar tornar seus corpos homogêneos, contente em deixar que "os pensamentos caminhem em uma direção única".

"Nesse processo todo, minha maneira de definir a desCompanhia é uma escolha pela fisicalidade poética: por trabalhar com a metáfora e a poesia no corpo", sintetiza Cintia.

Serviço:

Feche os Olhos para Olhar. Teatro Cleon Jacques (R. Mateus Leme, 4.777 – Parque São Lourenço), (41) 3313-7190. Direção de Cintia Napoli. Com a desCompanhia de dança. Quinta a sábado, às 20 horas e domingo, às 19 horas. Entrada franca. Até 21 de novembro.

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