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Personagem

A voz que deu vida ao boneco Pinóquio

O dublador Dickie Jones fala sobre o clássico considerado a animação mais perfeita da Disney, que completa 70 anos

Pinóquio: Disney chamou o então astro-mirim Dickie Jones para dublar seu projeto mais ousado | Divulgação
Pinóquio: Disney chamou o então astro-mirim Dickie Jones para dublar seu projeto mais ousado (Foto: Divulgação)

Pinóquio, a animação, está para completar 70 anos. O livro famoso de Carlo Collodi, em que Walt Disney (1901-1966) e seus animadores se basearam, é muito mais velho. Data de 1883.

O DVD Pinóquio chega às lojas com um monte de extras que retraçam a história da animação e mostram como o filme foi feito. Mas o mais importante é o próprio desenho. Ao longo de sua carreira, Disney produziu filmes que marcaram época. Após sua morte, o estúdio continuou se modernizando e produzindo novos clássicos, como O Rei Leão.

Críticos e historiadores como Danny Peary sustentam que Pinóquio é, de longe, a animação mais perfeita da Disney. Sem as ferramentas que a digitalização coloca hoje ao alcance dos animadores, os diretores Ben Sharpsteen e Hamilton Luske, construíram cenas imortais – basta prestar atenção nas expressões faciais do boneco falante quando ele fuma.

Em entrevista por telefone, Dickie Jones lembra como foi cansativo dublar a cena. No começo, era divertido – ele, um garoto, nos puritanos e repressores EUA de 1939, simulando uma transgressão. A cena foi repetida tantas vezes que lá pelas tantas ele não sentia mais graça e se engasgava com a própria simulação.

Filho de um editor de jornal, Dickie Jones nasceu no Texas em fevereiro de 1927. Aos 4 anos, já cavalgava, sendo considerado o ginete mais jovem do mundo. Aos 6, cavalgava e laçava como astro-mirim nos rodeios de Hoot Gibson, que convenceu os pais do menino de que seu lugar era em Hollywood.

Ele apareceu em numerosos filmes da série Our Gang e também em Um Benemérito, a elogiada estreia do roteirista Garson Kanin na direção, em 1938. Hoje, o filme parece datado, mas fez sensação e levou o garoto Dickie Jones ao papel do encrenqueiro Killer Parkins, em Nancy Drew.

Disney quis conhecer o fenômeno e terminou contratando-o para que fornecesse a voz para um novo e ambicioso desenho que pretendia realizar: Pinóquio.

Dickie lembra-se das intermináveis sessões em que posava para os desenhistas do estúdio e também dos testes de voz. Ele praticamente passou a morar no estúdio.

Dickie faz uma análise pertinente de Pinóquio, em relação a Branca de Neve, de 1937. "Lá, a protagonista, além de ser menina, faz o rito de passagem. Pinóquio, o boneco que quer ser gente, é o traquinas que amadurece. Branca de Neve precisa fugir de casa; ele se esforça para regressar", diz.

Marcado como Pinóquio, Dickie Jones prosseguiu na carreira e fez a série The Range Rider (1951). Seu último filme – um pequeno papel em Réquiem for a Gunfighter – veio em 1965. Depois virou empresário no Texas.

Aos 82 anos, tem às vezes a impressão de que suas memórias de Hollywood pertencem a outra pessoa. Mas os filhos e, agora, os netos não lhe permitem esquecer que foi Pinóquio. Até hoje lhe pedem que faça imitações.

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