São Paulo Ela figura na linha de frente da moderna prosa feminina em língua inglesa. Mas, enquanto Zadie Smith e Monica Ali convidam o leitor a perceber as sutilezas ocultas atrás de culturas distintas, Ali Smith oferece uma leitura mais árida. Basta se aventurar em Por Acaso (336 págs., R$ 49), que a Companhia das Letras acaba de lançar. Ao contrário de suas colegas de geração, que surpreendem com uma ficção ao mesmo tempo divertida, irônica e profunda, a escocesa Ali propõe um jogo de revelações que, se parece divertido no início, logo se revela algo perturbador e até perigoso.
Vencedor do prêmio Whitebread de melhor romance de 2005 e finalista do Man Booker Prize de 2006, dois dos mais renomados prêmios literários do Reino Unido, Por Acaso conta a história da família Smart, que passa as férias de verão em uma pacata cidade britânica. Tudo transcorre na mais esperada das monotonias até o surgimento de uma estranha figura, Amber, que se instala na casa alugada pelos Smart. Sem perceber, os membros da família acolhem a menina e, aos poucos, passam a lhe revelar o que não dizem nem mesmo entre (e para) si. Em pouco tempo, todos se descobrem enredados na intrincada psicologia de seus mundos e conflitos interiores.
A figura do desconhecido que, acolhido pela família, a transforma radicalmente, já inspirou outras obras na literatura e também no cinema, como Teorema, de Pier Paolo Pasolini. A diferença está no sexo do intruso em Pasolini, trata-se de um homem. E, ao contrário do universo do cineasta italiano, em que tudo era "miséria da carne" girando em torno da figura do visitante, no romance de Ali Smith, a chegada de Amber potencializa a libertação interior das personagens.
"Sempre me surpreendi como o cinema e também a tevê influenciaram nossa forma de compreender uma narrativa", comenta Ali, em entrevista por telefone. "Até o século 20, nenhum homem vivenciou a experiência de acompanhar uma história, seja escrita ou filmada, com uma narrativa editada e cheia de imagens como aconteceu nos últimos cem anos. Daí a facilidade que hoje temos para, em apenas um gesto, demonstrar raiva, ciúme ou alegria."
Ali fala em ritmo veloz, cadenciado, sem, contudo, atropelar as palavras. Há uma certa necessidade de urgência em seu discurso, como se entendesse que cada segundo deve ser devidamente utilizado. Ao mesmo tempo, consegue dar o devido valor a tudo o que diz. Algo semelhante à sua prosa: Ali Smith não tenta pôr palavras na boca de seus personagens; na verdade, deixa que falem por si, que cada um vá, aos poucos e ao seu modo revelando sua riqueza interior, seus conflitos e seus temores. É o que justifica a riqueza de seus recursos estilísticos, em que utiliza tanto poemas como frases em que as palavras não são cortadas entre uma linha e outra .
Nascida em 1962 e atualmente vivendo em Cambridge com sua companheira, Ali começou como escritora de contos até enveredar pelo romance (Por Acaso é seu terceiro). Gêneros, para ela, muito distintos. "É possível um escritor viver até anos preso a um romance: enquanto se escreve, ele não o abandona. Para mim, é o caso da mistura entre cegueira, confiança e medo" conta. "Já o conto, aparentemente, exige menos, mas talvez seja apenas uma parte menor do círculo de exílio e dependência que representa o ato de escrever. E a preparação para ambos nunca parece parar. Na verdade, nunca há folga nesse tipo de trabalho."
Perguntada se prefere uma ou outra forma de escrita, Ali evita qualquer escolha. Para ela, tanto o conto como o romance são igualmente difíceis e recompensadores. "A única vantagem de se escrever contos é que, no período de escrita entre um e outro é possível (mas nem sempre) dormir com um pouco mais de sossego."
Na obra de Ali Smith, o que realmente importa é o tema e não o formato. Em Hotel World, por exemplo, livro ainda não lançado no Brasil, ela trata ao mesmo tempo de cinco personagens que têm alguma relação com o Hotel Global. Entrelaçadas, as vozes chegam a confundir no início até o momento em que o destino de cada uma é bem demarcado. E, por meio desses discursos variados, a escritora escocesa, que será um dos grandes nomes presentes à Festa Literária Internacional de Parati (que começa na próxima quarta-feira) mistura amor platônico, morte, estupidez e poesia com naturalidade, como o que normalmente acontece em qualquer hotel do mundo.



