Primeiro longa-metragem exibido na Mostra Competitiva do 39.º Festival de Gramado, o filme Riscado, do diretor carioca Gustavo Pizzi, chamou atenção por trazer uma nova dinâmica na forma de se fazer cinema. Com baixo orçamento (cerca de R$ 800 mil, incluindo finalização), o diretor e o produtor Cavi Borges optaram por parcerias, coprodução e investimento direto, sem utilizar leis de incentivo. "Esse é um esquema em que acreditamos muito. O investimento público necessário, mas também é preciso assumir riscos", disse o diretor em entrevista à Gazeta do Povo, logo após a exibição no festival.
O filme, gravado no Rio de Janeiro em duas fases (maio de 2009 e início de 2010), traz uma interessante mistura de formatos (digital, alta definição e até câmera fotográfica, em vídeos feitos pela protagonista) e conta a história de Bianca (Karine Teles), uma atriz que busca consolidar sua carreira. Criticada por não ter uma profissão "de verdade", a narrativa aborda o mercado de trabalho cruel da área e traz muito da vida de Karine e do diretor, que são casados. "Não é biográfico, mas aborda nossa vivência de buscar fazer o que gostamos e ter de se sustentar com isso", contou Pizzi. O filme tem previsão de estreia nos cinemas no final do mês. Veja os principais trechos da entrevista:
O roteiro começou a ser escrito pela própria Karine Teles, e logo depois você interferiu. Como foi essa troca de ideias e até que ponto o texto guiou os atores?
Começou com uma inquietação. Passamos por muitas coisas próximas ao que ocorre no filme. O processo foi diferente do normal. Rodamos a primeira parte com o texto da Karine e depois colocamos outras possibilidades que desenvolviam a história. Teve muita contribuição dos atores, não ficamos em roteiro congelado. Foi um processo diferente, de constante construção, diferente de um livro.
O filme foi realizado sem leis de incentivo, buscando coprodução e parcerias . Por que fizeram essa escolha?
Assumimos um risco neste primeiro longa-metragem, mas fazer filme assim no país ainda é complicado. Acreditamos em filmes maiores, como o Tropa de Elite 2, feito de uma forma empreendedora, o que é muito importante para o cinema brasileiro. Tínhamos uma parte pequena em dinheiro vivo e outra muito importante em serviço, que foi feita em parceria com empresas. O ideal seria que a gente fizesse um filme que tivesse lucro e, com esse dinheiro, investir em outro. Porém, não descartamos o apoio estatal. Se você faz um filme de R$ 3 milhões, não consegue sem incentivo público.
Você traz diversas referências no seu filme, como no uso de balões vermelhos muito semelhantes a Le Ballon Rouge (1956, de Albert Lamorisse), além do uso de uma música e imagens de Bettie Page. Como trabalhou isso? Teve problemas com direitos autorais?
Para usar a Bettie Page, entramos em contato e pagamos os direitos devidos. Nas outras referências, retrabalhamos e reprocessamos, é a releitura da releitura. Nós íamos usar uma cena de Persona (do sueco Ingmar Bergman, 1966). Entramos em contato e eles disseram que custaria US$ 20 mil. Desistimos, é claro.




