
Contratado em setembro de 2010 como diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo até o fim de 2013, o maestro Alex Klein se demitiu nesta semana. E saiu atirando. Disse que "renunciou" ao cargo e ao salário de R$ 35 mil , porque "não conseguiria olhar no rosto" de um paulistano e garantir que faria neste ano uma programação à altura do centenário do teatro, que será celebrado em 12 de setembro. "O Teatro Municipal não é de hoje que está um caos. Vem de décadas", diz o maestro.
O motivo da saída de Klein, gaúcho que cresceu em Curitiba, teria sido um choque com o diretor cênico carioca Felipe Hirsch, também criado em Curitiba. O encenador foi contratado para dirigir uma montagem da ópera Rigoletto (com Daniela Thomas), que estreia em 13 de setembro. A regência será de J. David Jackson, da Metropolitan Opera House de Nova York. "Há outras forças querendo opinar, querendo deixar a sua marca e criando conflito", afirmou Klein. "O Teatro Municipal não é de hoje que está um caos. Vem de décadas."
Em entrevista, Klein disse que o que precipitou sua demissão foi o cancelamento do Concerto de Gala, planejado para o dia 12 de setembro, data do aniversário do teatro. "Isso foi feito sem o conhecimento da direção artística. Eu não fui consultado. E, ao enviar a minha programação preliminar, ideias e como iríamos fazer esse trabalho, fomos informados de que tudo era sem razão porque o concerto tinha sido cancelado. Isso tem acontecido muitas vezes. Eu não me senti como um diretor artístico nesses quatro meses, talvez eu tenha sido um escudo."
Klein disse que o cancelamento do Concerto de Gala, "o concerto mais importante dos últimos cem anos" para o Municipal, segundo o músico, gerou um efeito dominó.
Uma montagem de As Valquírias estava agendada para o mês de junho, mas o Municipal de São Paulo não estará pronto em tempo. A ópera de Rigoletto estava prevista para novembro e acabou sendo antecipada em dois meses.
O diretor cênico da montagem, Felipe Hirsch, teria solicitado ter mais tempo para a montagem. Isso, segundo Klein, forçou o teatro a cancelar duas temporadas do Balé da Cidade de São Paulo. "Quando o artista chega e diz: eu quero o teatro todo para mim, eu acho isso maravilhoso. Eu gosto de gente egoísta, que defende com unhas e dentes o seu trabalho. Mas o meu trabalho como diretor artístico é garantir que o terceiro corne inglês da orquestra tenha o mesmo valor que o (Daniel) Barenboim. Para a direção artística, todos são iguais e a gente vai alocar espaço, tempo e dedicação para cada projeto de maneira igual. Não se pode tratar com estrelas dentro da direção artística."
Hirsch avaliou que seria impossível desmontar a estrutura do espetáculo para a realização do evento de gala, na véspera. Sugeriu que adiassem as récitas ou repensassem a festa. "Não mandei cancelarem. Não tenho esse poder. Só fui profissional. Montar no dia da estreia é pedir para dar errado'', disse o diretor.
Sem citar o nome de diretor cênico "Eu não posso criar problemas para a pessoa, porque não é culpa dela. Ele não tem culpa de exigir espaço , Alex Klein admite que a situação é culpa da falta de organização do teatro, e não de Hirsch.
A Secretaria Municipal de Cultura informou que "recebeu com surpresa" a carta de renúncia do maestro Alex Klein e ainda não decidiu quem dirigirá o teatro a partir de agora. "Desde o momento do convite, foi esclarecido ao maestro Klein que a Secretaria de Cultura já havia iniciado a programação do centenário. Uma comissão havia se encarregado de definir as linhas da programação e as principais óperas e ele teria de trabalhar. O maestro sabia, desde o início, que sua liberdade era limitada pelos compromissos assumidos".



