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Andrea Bocelli canta no Rio e em São Paulo

Andrea Bocelli se apresenta de graça na capital paulista | Divulgação
Andrea Bocelli se apresenta de graça na capital paulista (Foto: Divulgação)

Minutos antes do horário marcado para a entrevista com Andrea Bocelli, chega a advertência, por intemédio de seus representantes, de que ele não falaria de sua vida pessoal ou sobre sua condição de cego durante a conversa, a qual, aliás, não passaria de dez minutos.

Até aí, nenhuma surpresa. É sabido que o tenor italiano de 50 anos preza sua privacidade e evita a imprensa. Faz concessões quando precisa divulgar um novo disco ou, como é o caso, um show. Ele se apresentará no Rio às 22 horas do próximo sábado, na Arena, e em São Paulo, no dia 21, no Parque da Independência.

Bocelli nasceu com glaucoma e perdeu de vez a visão aos 12 anos após levar uma bolada na cabeça numa partida de futebol. Uma tradutora de confiança do tenor, que o assiste em entrevistas em inglês, explicou recentemente a uma repórter de um jornal britânico por que ela deveria desistir de perguntar ao astro o motivo de ele não falar sobre a cegueira: "Ele não quer ser visto como uma vítima. Não quer que as pessoas achem que seu sucesso se deve a uma tragédia. Ele não leva a cegueira em consideração".

A julgar pelos seus "hobbies", é a pura verdade: ele adora cavalgar (e chegou a montar um cavalo no palco numa montagem da ópera Werther), faz patinação e esportes aquáticos, como windsurfe.

Em relação à vida pessoal, ele também tem motivos para o laconismo: quando seu casamento de dez anos com Enrica Cenzatti, mãe de seus dois filhos, acabou, em 2002, sua intimidade ganhou exposição.

Crítica

Atritos com a imprensa se estendem ao campo profissional. Apesar de seu enorme sucesso de público, atestado pelos 65 milhões de CDs e DVDs vendidos, Bocelli já foi muito criticado por fraquezas na técnica vocal, sobretudo quando canta ópera, e pelos arranjos de canções populares, que às vezes descambam para a breguice. O sarcástico crítico britânico Norman Lebrecht disse, sobre seu sucesso: "É um cego guiando os surdos". Outro crítico, Robert Levine, costuma atacar a pequenez de sua voz, que dependeria de microfone para ganhar presença.

A influente revista britânica Gramophone, no entanto, já elogiou muitas de suas performances em disco, exaltando sobretudo seu timbre singular e muito doce. Nos shows no Brasil, o tenor será acompanhado por uma orquestra e um coro, sob regência do maestro Eugene Kohn.

O repertório do show ainda não está definido, mas será principalmente de música italiana, com grandes árias de óperas e canções tradicionais napolitanas. "Certamente incluirei muitas músicas de meu último disco, Incanto (lançado ano passado)", diz o cantor.

Sua estreia no Rio foi em outubro de 1998, no então Metropolitan (hoje Citibank Hall). Ele diz guardar boas recordações do Brasil, mas não tem planos turísticos para o período desta nova visita: "Quando estiver no Brasil, vou me contentar em estar no Brasil. Tenho lembranças maravilhosas do pouco tempo que passei no seu país, principalmente no Rio, que tem uma atmosfera especial. Meus filhos têm vontade de conhecer o Brasil, mas não poderei levá-los porque eles têm escola."

O toscano explica como nasceu seu amor pelo canto lírico: "O que despertou minha paixão pelo canto e a ópera foram as vozes de cantores privilegiados como Beniamino Gigli, Franco Corelli, Mario del Monaco, enfim, os grandes tenores do passado." A devoção por Corelli levou Bocelli a procurá-lo para ter aulas de canto e a tocar piano em casas noturnas em troca de dinheiro para pagá-las. Corelli foi um grande incentivador de sua carreira, elogiando desde cedo a beleza de sua voz e seu senso de melodia.

Enquanto as vendas de discos clássicos geram debates sobre uma grave crise, as dos CDs de Bocelli passam longe disso. Ele não concorda com os pessimistas. "Hoje assistimos a uma decadência geral, não tanto em relação à música clássica, que ainda é uma referência para todos que estudam e amam a boa música. Os teatros continuam lotados. A questão é fazer com que ela seja conhecida pelos jovens", opina. Se ele acha que tem logrado isso? "Não sei, mas espero que sim."

Outro debate em voga é sobre a renovação da música clássica. O repertório de Bocelli, por exemplo, é bastante centrado no período romântico. Ele é sincero ao responder se gosta da música clássica moderna: "É difícil. A música moderna vive uma fase de pesquisa. Ela deveria achar um jeito de se aproximar de gente comum." Gente comum poderá ver o tenor de graça em São Paulo, mas o show no Rio tem ingressos de pista entre R$ 700 e R$ 1.200, de camarote a R$ 700 e de arquibancada nível 1 (a mais baixa) a R$ 550. Os ingressos mais acessíveis são da arquibancada nível 3, a R$ 100 e R$ 200. O que ele pensa disso? "Não sabia disso. Lamento saber. O ideal de um cantor é poder se apresentar para todos, com entrada franca. Mas cada um tem seu papel. Eu sou cantor. Outras pessoas organizam o concerto. Os preços são escolhas feitas pelos promotores. No show, vou dar o melhor de mim. Mais que isso, não posso fazer", conclui ele.

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