
Uso do vídeo e ocupação do espaço urbano. Estas são características recorrentes nas obras dos artistas contemplados pelo Edital Bolsa Produção 2008, do Fundo Municipal da Cultura. O projeto financiou o desenvolvimento e a exibição de 12 trabalhos relacionados às artes visuais, que podem ser conferidos a partir de hoje, no Solar do Barão, e amanhã, no Memorial de Curitiba.
A edição a terceira desde que a bolsa foi criada, em 2005 apresenta uma novidade que segue uma tendência no campo das artes: a presença de dois coletivos, o Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial e o Orquestra Organismo. Também expõem os artistas Cláudia Washington, Fábio Noronha, Glauco Salamunec, Lílian Gassen, Milla Jung, Marga Puntel, Ana Godoy, Marcelo Scalzo e Gláucia Flügel.
"A entrada dos projetos coletivos inaugura um tipo de produção artística que não tinha muita visibilidade, mas que está em perfeita sintonia com o que acontece na atualidade em todo o mundo", explica a artista e coordenadora do programa Ana González.
O coletivo de dança Couve-Flor "infiltra-se" pela primeira vez nas artes visuais com a exposição Infiltrações Procedimento Nômade para Café, Praça, Vídeo e Sala de Exposição, de autoria de três dos integrantes do grupo: Elisabete Finger, Neto Machado e Ricardo Marinelli. Os vídeos que apresentam no Solar do Barão dão continuidade à pesquisa que os "couves" já desenvolvem há alguns anos sobre o corpo em movimento como suporte para a arte e são resultado do desejo de levar a ação a um espaço público.
"Isso acompanha nosso interesse pela performance e pelo potencial da ação de transformar de alguma forma aquele espaço", explica Elisabete Finger.
O trio elegeu um ponto de observação para dar início ao projeto: o café Fingen, localizado estrategicamente em uma esquina das ruas 13 de Maio, Conselheiro Laurindo e Amintas de Barros. Ao longo de seis meses, eles sentaram-se, religiosamente, em uma mesa do local para tomar nota durante uma hora de pequenos acontecimentos: a mulher que pede diariamente o mesmo café, o homem de camisa amarela que atravessa a rua, fatos absolutamente rotineiros ou estranhos. "Ficamos superinteressados nisso, que não é nada mais do que cotidiano, mas que basta mudar a chave de observação para olhar de outra forma", diz a artista.
Os três decidiram acionar o que chamaram de "pacto de visibilidade": fazer com que as pessoas prestem atenção ao que antes passaria batido. Começaram a infiltrar ações rotineiras no café como forma de "abrir um canal de percepção para a vida cotidiana", como explica Elisabete.
A ação acontece em horários que Elisabete prefere não divulgar, para não estragar a espontaneidade da recepção, e está relacionada ao vídeo em exibição no Solar do Barão: uma projeção contínua de 20 minutos com imagens de uma das esquinas do café. Em meio ao trânsito, ao ir-e-vir de pessoas e ao barulho da cidade, os artistas inserem pequenas ações como um beijo, um diálogo, uma pessoa deitada na calçada, sinais gráficos, legendas e outras ações.
Já o coletivo Orquestra Organismo, formada por Lúcio de Araújo, Simone Bittencourt e Guilherme Sores, apresenta Caverna de Kernel, que relaciona a arte a projetos de software livre. Com a ajuda de lanternas, o público entra no núcleo de sistemas operacionais (Kernel) e dispara a projeção de registros audiovisuais relacionados ao tema investigado. O trio deseja mostrar que há poética na busca científica, não só nos museus, cinemas e teatros. "A gente refaz os caminhos do engenheiro como o pintor escolhe as tintas, na contramão da indústria", diz Guilherme Sores.



