
Meados da década de 1960. A Renault buscava um projeto original que aproximasse dois mundos bem distintos e, aparentemente, opostos: a arte e a indústria. Não bastava, para isso, comprar obras para criar um acervo. Desenvolveu-se, então, um sistema de mecenato "generoso" para ambos os lados.
"Foram convidados artistas para produzir com toda a infraestrutura técnica e financeira. Foram disponibilizados ateliês e o livre acesso a todas as instalações da empresa", explica Ann Hindry, historiadora de arte e curadora do resultado da iniciativa, a Coleção de Arte Renault, formada por 300 obras produzidas entre 1967 e 1985.
Parte delas (96, especificamente) estarão em exibição, a partir deste sábado (16), na mostra Uma Aventura Moderna, que a Renault traz pela primeira vez ao Brasil, começando pelo Museu Oscar Niemeyer e seguindo para São Paulo.
Se o projeto rendeu à Renault uma coleção de valor inestimável para a arte mundial, os artistas também lucraram com a liberdade de produzir o quanto desejassem. "Era uma via de mão dupla. Eles tinham interesse em sair do padrão clássico estabelecido e retratar aspectos da vida moderna. Além disso, a coleção só adquiriu parte desta produção, o restante ficou com os artistas", conta Hindry.
Com peças da fábrica, alguns dos 18 artistas reunidos na mostra produziram obras diretamente relacionadas à questão industrial. O viés era sempre crítico e, por vezes, até irônico. O francês Arman cortou um motor pela metade, utilizando-o para carimbar repetidamente, no lugar do pincel, uma tela clássica. Nomeou-a de "Acumulação Renault".
"A acumulação foi utilizada para criticar a sociedade de produção de massa", diz Hindry. Já o suíço Jean Tinguely expõe arte e indústria ao ridículo ao transformar máquinas gigantescas em esculturas. "Ele dá à máquina uma visão poética. Ela deixa de ser racional e se torna louca, sem serventia", diz a curadora.
Os dois artistas fazem parte da primeira parte da mostra, O Universo Industrial, que também traz obras do precursor da pop art, o norte-americano Robert Rauschenberg, sete imagens de Robert Doisneau feitas 40 anos antes da criação do mecenato.
Em O Mundo Dubuffet, a seção mais impressionante da mostra, estão nove de cem grandes peças criadas pelo artista francês Dubuffet para compor um teatro: o Coucou Bazar, onde a pintura é ao mesmo tempo ator, personagem, cenografia e escultura.
Para o húngaro radicado na França Victor Vasarely, nada era fixo. "Tudo era energia, inclusive, a pintura", diz Hindry. Por isso, assim como o argentino Julio Le Parc, suas obras criam a ilusão de estar em movimento.
A sessão Arte Abstrata traz obras de artistas que não se envolveram com o mundo industrial, mas que receberam o apoio da Renault, entre eles, Juan Miró.
As duas últimas obras são Madonnas que "protegem a coleção", brinca Hindry. O islandês Erró instala a virgem (que heresia!) no interior de um confortável carro com estofamento em couro vermelho. Já a francesa Niki de Saint-Phalle, única mulher presente na mostra, pinta a vida sob a forma de uma deusa branca ("The White Goddess").




