
Magia e bom humor são as armas infalíveis de Jean-Pierre Jeunet. O francês, diretor de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) e de Ladrão de Sonhos (1995), talvez seja um dos cineastas vivos que mais preservem sua originalidade e sua maneira de ver e fazer cinema. Ele tem uma quedinha pelo fantástico, pelo nonsense, e isso surge novamente e de maneira encantadora em MicMacs Um Plano Complicado, que chega às locadoras em DVD.
A história é tão bizarra quanto comovente. O azarado Bazil (Dany Boon) perdeu o pai na guerra, vítima de uma mina terrestre. E trabalhando em uma videolocadora, o inofensivo rapaz foi vítima de uma bala perdida, que se alojou em sua cabeça. Agora, desempregado e sem perspectivas, quer se vingar das duas gigantescas companhias que fabricaram as armas.
Para destruir o império dos empresários, ricos e ostentadores, Bazil tem a ajuda de uma trupe de indivíduos com talentos surpreendentes. O grupo mora em uma caverna construída em um ferro-velho. Um dos personagens é capaz de calcular tudo a qualquer hora; outro é contorcionista; há um construtor de engenhocas; e um homem-bala recordista mundial, representado por Dominique Pinon, ator-fetiche do diretor.
A fotografia cuidadosa e as cores excepcionais sugere que a aventura se passa dentro de um sonho. Mas a "luta" é real e os golpes, certeiros. O fabricante de munição é um colecionador de carros antigos, possível metáfora sobre o amor ao material, ao perecível. Solitário, tem carinho especial pelos veículos. Mas, em uma manhã depois de uma noite inteira de trabalho do grupo de Bazil , só vê carros enferrujados no pátio. São os carros do ferro-velho.
O outro "bandido", o fabricante de minas, é colecionador de bizarrices valiosas. Com ele estão um dente molar de Marilyn Monroe e as unhas de Winston Churchill, entre outros mimos que indicam superficialidade. Eis que a coleção desaparece, da noite para o dia. A ideia de Bazil o plano complicado é colocar um contra o outro. Funciona. Os dois grandes empresários começam a trocar farpas e iniciam uma guerra particular.
No filme, há momentos magistrais. Em uma curta e genial cena, Jeunet revisita sua própria obra com muito bom gosto. Bazil ouve, por meio de um aparelho improvisado, o que se passa no apartamento de baixo: uma violoncelista e o ator Dominique Pinon, tocando uma espécie de theremin, fazem música, recriando uma cena de Delicatessen (1991), primeiro longa do diretor.
Apesar da fachada lúdica e da delicadeza de MicMacs, Jean-Pierre Jeunet usa suas próprias armas para discutir a indústria bélica e tudo que a envolve mortes, corrupção e muito dinheiro. GGGG



