
Um recorte atual da América Latina moldado pela tesoura afiada de intelectuais do porte de um Eduardo Galeano e de um Chico Buarque. Sangue La - tino, programa do Canal Brasil que estreou no dia 25, pretende, com entrevistas de quase meia hora, decifrar a quantas andam os brasileiros e nossos hermanos de língua espanhola em termos de política, cinema, literatura, música e outros que tais.
Criado pelo jornalista e escritor Eric Nepomuceno, o programa entra em contato com 18 pensadores do continente. Invade suas casas, literalmente. As entrevistas foram gravadas no Uruguai, Argentina, Chile e Brasil e se configuram como um bate-papo cabeça sobre questões a princípio abrangentes, mas que se modificam e ganham originalidade por causa das diferenças de pensamento dos bambambãs entrevistados.
Dirigido por Felipe Nepomuceno filho do apresentador e produzido pela Urca Filmes, Sangue Latino tem um tom semidocumental, sugerido tanto pelo preto e branco das imagens quanto por uma bela trilha sonora, composta em uma jam session pelo pianista e acordeonista Marcos Nimrichter.
Sangue e política
O nome do programa é homônimo da canção composta por João Ricardo e Paulinho Men - donça, sucesso arrebatador na voz de Ney Matogrosso. "E o que me importa/ é não estar vencido/ Minha vida, meus mortos/ meus caminhos tortos/ Meu Sangue Latino/ minhalma cativa", canta Ney.
A reportagem da Gazeta do Povo assistiu a dois episódios do novo programa. Um deles com o escritor Eduardo Galeano, que recebeu a equipe no jardim de sua casa, em Montevidéu. O episódio vai ao ar amanhã. E outro com o músico e escritor Chico Buarque, que concedeu entrevista em sua residência no Rio de Janeiro. O carioca foi o protagonista do programa de estreia, na semana passada.
É notável a ausência de roteiro prévio, e isso é ótimo. Perguntas, poucas, surgem emendadas umas às outras. Mas em ambas as entrevistas, o tom político algo também presente na canção , foi o mote da conversa.
Eduardo Galeano, autor do premiado Veias Abertas da América Latina e historicamente ligado à esquerda, é o entrevistado de amanhã. O escritor uruguaio destila com maestria teorias acerca do comportamento humano, da infância e da sociedade padronizada de hoje. É bom ouvir Ga - leano falar, seja sobre isso ou sobre seu cão recém-falecido. Permeando a entrevista, surge um Galeano poeta, que declama alguns versos que complementam bonitas imagens, sempre marcadas pela ausência de cor.
Aplacar a banalidade da existência e eternamente relembrar a beleza das coisas simples, outras de suas características, surge em comentários e lembranças. Co - mo aquela em que uma criança disse, sem mais nem menos, "oi, graminha". Uma pergunta de Nepo muceno sobre a utopia, por exemplo, faz com o que o escritorcrie uma imagem lúdica e inspiradora.
Já Chico recebe o repórter com óculos escuros e inclinado sobre o piano que herdou da avó, demonstrando sem muito êxito uma ou outra peça que sabe tocar. Sentado em uma sala clara, discorre sobre Cuba. Entre outras coisas, diz que não se sente arrependido por ter apoiado a revolução de Fidel. E que acha incrível, por exemplo, a linha invisível do tempo, capaz de conectar lembranças de sua bisavó às molequices de sua neta. Fala-se pouco sobre música e, ainda assim, os 23 minutos de papo revelam-se exíguos.
Outro que marcará presença em episódios futuros é o artista plástico argentino Leon Ferrari, considerado pelo jornal The New York Times como "um dos cinco artistas vivos mais provocadores e importantes do mundo." Eric Nepomuceno também conversou com o escritor chileno Antonio Skármeta, autor de Ardente Paciência, livro que inspirou o premiado filme O Carteiro e o Poeta vencedor de um Oscar e indicado a mais quatro categorias.
Os argentinos Pino Solanas, cineasta tido como referência no cinema documental, e o escritor Mempo Giardinelli, autor de Luna Caliente que no Brasil inspirou a minissérie homônima produzida pela TV Globo são mais alguns dos 18 entrevistados no programa que, com um entrevistador incisivo, porém sensível, e entrevistados que têm um mundo a dizer, reabre as veias da América Latina.
Serviço: Sangue Latino é exibido pelo Canal Brasil às terças-feiras, às 21 horas. Reprises aos sábados, às 12 horas.





