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Homenagem

As marcas do “anjo pornográfico” no teatro brasileiro

Enquanto modernizava os palcos nacionais com Vestido de Noiva e inúmeras outras peças chocantes, Nelson Rodrigues escrevia de maneira que daria bases para a interpretação contemporânea

Nelson: inseparável do café e do cigarro, que faziam piorar sua incômoda úlcera | Chico Nelson/Arquivo/Revista Veja
Nelson: inseparável do café e do cigarro, que faziam piorar sua incômoda úlcera (Foto: Chico Nelson/Arquivo/Revista Veja)

Para além do erotismo escancarado que introduziu na dramaturgia brasileira e que muitas vezes o estigmatiza, Nelson Rodrigues, que completaria cem anos de nascimento na próxima quinta-feira, em meio a diversas estreias honoríficas, inaugurou uma forma de escrever e interpretar sem a qual o teatro brasileiro estaria na pré-história.

Diretores ouvidos pela reportagem da Gazeta do Povo apontam em primeiro lugar a força de seu texto. "É muito teatral, escrito para ser dito no palco: no cinema fica falso; lido, não parece verdade", aponta Edson Bueno, que conta sete montagens rodriguianas, entre peças e contos, em sua carreira. "No palco, aquilo surge de maneira coerente, fica forte e comunica muito a essência do sentimento do brasileiro", completa.

Apesar da tônica carioca de sua obra, que explodiu com Vestido de Noiva (1943), considerada a montagem inaugural do modernismo no teatro brasileiro, é comum ver Nelson ser apontado como universal – o que fica escancarado em sua fase mítica. "Anjo Negro não é só sobre preconceito racial. Traz a dualidade entre bem e mal de qualquer pessoa", considera o diretor do grupo Mosaico, de Cuiabá, Sandro Lucose, que apresenta hoje em Curitiba sua versão da peça. As demais obras consideradas míticas são Senhora dos Afogados, Álbum de Família e Doroteia.

Essência

Outro elemento inaugurado por Nelson e que transformou a dramaturgia nacional foi a inserção do povo no palco. E o que ele diz sai em diálogos entrecortados, sem longos "bifes", que são os grandes trechos declamados.

"Os atores tiveram de mudar sua maneira de interpretrar: não tem como aplicar o realismo e o naturalismo. Ele acabou obrigando o ator brasileiro a interpretar na essência, sem deixar de lado a poesia", acredita Edson.

"O que eu mais gosto é essa força viva que domina a cena com economia de palavras", acrescenta Rafael Camargo, que dirige a peça Buraco da Fechadura, inspirada em seis contos de A Vida como Ela É.

Rafael aponta ainda a coragem do pernambuco radicado no Rio de enfrentar polêmicas, pagando o preço por isso. "Ele quis tocar nas feridas, expor as relações familiares. Deu uma contribuição até sociológica", comenta.

Atento às transformações ao seu redor e jornalista de profissão, Nelson abordou em vários trabalhos a invasão de privacidade por parte da imprensa, a tensão filial, entre os sexos e classes, a pedofilia, a atração homossexual e muita, mas muita traição. Com essa lista, não é de estranhar que sua obra seja solenemente ignorada nas escolas.

"Antes, a dramaturgia era água com açúcar, comédia de costumes, draminha básico", diz Bueno. "Nelson tinha de ser lido nas escolas e faculdades como se lê Shakespeare", sugere Lucose.

Quando morreu, em 1980, vítima de diversas complicações cardíacas e respiratórias que o acompanharam por toda a vida adulta, o dramaturgo havia cunhado um sem número de frases polêmicas que definem o brasileiro. Para si, escolheu o papel de "anjo pornográfico".

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