Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
História

As pombas da guerra

Há 100 anos, tinha início a Primeira Guerra Mundial, carnificina insensata, com técnicas científicas de extermínio, que causou a morte de 15 milhões de pessoas

 | Arquivo pessoal
(Foto: Arquivo pessoal)
Rapazes gaúchos na Piazza di San Marco, em Veneza, dias antes do início da Guerra: pombos-correios salvaram vidas |

1 de 1

Rapazes gaúchos na Piazza di San Marco, em Veneza, dias antes do início da Guerra: pombos-correios salvaram vidas

Cartões postais antigos sempre contam uma história. Encontrei um particularmente significativo dentro das páginas de um livro comprado num sebo. O cartão traz a foto de dois rapazes gaúchos dando comida para as pombas na Piazza di San Marco de Veneza. Eles vestem ternos leves de verão, chapéus de palha de gondoleiro e, noblesse oblige, colarinhos engomados e gravatas. Escreve um deles para a namorada:

"Meu amor. Uma recordação da Praça de S. Marcos (vê a igreja ao fundo) de suas ‘piccioni’ (pombas) de Rubens e minha. A pomba que está em minha mão, quando voou da Praça, eu observei a direção, em tua procura... Chegou? Chega agora com minhas saudades, meu amor."

Não pude decifrar o nome do nosso herói, encoberto pela assinatura do lambe-lambe: G. DE BIASI – FOTOGRAFOS. MARCO 4879 – VENEZIA. Outros detalhes marcantes no pequeno retângulo de cartolina de 14 x 9 centímetros: entremeado do anúncio da XI ESPOSIZIONE INTERNAZIONALE d’ARTE – VENEZIA – APRILE-OTTOBRE 1914, o carimbo da remessa, VENEZIA FERROVIA, 2.VII.14. A destinatária é Signorina Delmunda Guidotte, Itaqui, Rio Grande do Sul, via Montevideo. O carimbo gaúcho registra a chegada em 29 de julho de 1914. Os paquetes (packet boat em inglês; paquebot em francês – navios de carreira a vapor) eram de uma regularidade admirável: faziam em exatos 28 dias o trajeto Liverpool-Rio de Janeiro. Daí o termo "estar de paquete" para se referir ao ciclo menstrual das moçoilas da época.

Inocência

Estes jovens turistas brasileiros alimentavam os pombos de San Marco na santa inocência do que acontecia no mundo ao seu redor. Dias antes, em 28 de junho, o Arquiduque do Império Austro-húngaro, Francisco Ferdinando, foi assassinado a tiros por um terrorista sérvio quando visitava Sarajevo. Em decorrência do atentado, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia em 28 de julho, um dia antes de o cartão chegar a Itaqui, RS. Em efeito-dominó, as alianças europeias se ativaram: a Rússia partiu em defesa de sua aliada, a Sérvia. A Alemanha, aliada dos austro-húngaros, declarou guerra à Rússia e à França. Para chegar à França, os alemães invadiram a Bélgica, aliada do Reino Unido, que entrou na briga. O Império Otomano se aliou às Potências Centrais. Começava a Grande Guerra, uma carnificina insensata que causou a morte de 15 milhões de pessoas.

Foi a primeira guerra moderna, com técnicas científicas de extermínio. Químicos premiados aperfeiçoaram gases letais que mataram ou lesaram milhares de combatentes e civis. (Um deles, o judeu alemão Fritz Haber, Nobel de Química em 1918, criou o inseticida Zyklon, o gás venenoso que mataria milhões de judeus nos campos de extermínio da Segunda Guerra.) Em terra, mar e ar surgiram engenhos mortíferos como o tanque, o submarino e o avião. Fuzis, metralhadoras e canhões estraçalhavam corpos e cobriam de sangue os campos de batalha – um dos terrores era o canhão alemão Grande Bertha, perversamente batizado com o nome da filha do seu fabricante, Alfred Krupp.

Até as pacíficas pombas participaram da guerra. Na primeira batalha do Marne, as tropas francesas avançaram com 72 unidades de pombos-correios. O exército americano usou 600 pombos na França. Uma pomba famosa, Cher Ami, foi condecorada com a Cruz de Guerra francesa. Em sua missão final, mesmo alvejada por um tiro na asa, ela entregou uma mensagem que salvou a vida de 200 soldados americanos.

Na guerra de trincheiras, cercadas de arame farpado, os combatentes conviviam com ratos – que se alimentavam dos feridos agonizantes – e sofriam a tortura mental do cafard (barata, em francês), que designava o desespero reinante naquele cenário de chuva, lama e sangue, o "macabro baile" de que fala Thomas Mann.

Não vou tentar numa crônica o que tratados históricos ainda se esforçam para explicar: a Grande Guerra foi a mãe de todas as guerras e nos persegue até hoje. Deixo apenas a palavra final com o grande cronista do Absurdo de nossa época, Franz Kafka, então com 31 anos. Em seu diário, ele anotou apenas, no tom de indiferença que marcaria o século cruel: "Deutschland hat Rußland den Krieg er­­klärt. – Nachmittag Schwimms­­chule." "A Ale­­manha declarou guerra à Rússia. – À tarde, aula de natação."

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.