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Quadrinhos

Baleia divisora de águas

Primeira parceria entre Daniel Galera e Rafael Coutinho se revela um marco das HQs no Brasil. Autores estão em Curitiba para divulgar o livro

Valorização do vazio é destaque no traço de Rafael Coutinho | Reprodução
Valorização do vazio é destaque no traço de Rafael Coutinho (Foto: Reprodução)
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O lançamento de Cachalote (Qua­­drinhos na Cia.), que acontece às 19 horas de hoje na Itiban Comic Shop, quer dizer muito para o mercado de quadrinhos do Brasil. Indícios disso são os nomes por trás do ousado projeto – o escritor Daniel Galera e o quadrinista Rafael Coutinho, o filho de Laerte; a qualidade irretocável da obra; e a sequência qualitativa por ela proporcionada, já que sucede ótimas publicações que saíram por aqui, como Mesmo Delivery (de Rafael Grampá), Chapa Quente (de André Kitagawa) e Sábado dos Meus Amores (de Marcelo Quin­­tanilha). Além dos dois criadores de Cachalote, Rafael Grampá e o escritor Daniel Pellizzari também participam do lançamento do imponente álbum, na mais tradicional loja de quadrinhos de Curitiba.

O texto do paulista Daniel Ga­­lera, autor dos livros Até o Dia Que o Cão Morreu (adaptado para o cinema por Beto Brant em Cão sem Dono), Mãos de Cavalo e Cordilheira, não poderia encontrar melhor traço do que o de Rafel Coutinho. O trabalho, que durou dois anos, é o primeiro em conjunto dos dois artistas. "Nos encontramos dezenas de vezes em São Paulo, Garopaba [que, coincidentemente é visitada por baleias franca] e Porto Alegre para trabalharmos juntos no roteiro e nos storyboards. No resto do tempo, nos falávamos por e-mail, telefone e Skype", conta Galera.

Ao abrir o livro, surpresa. Uma mini-história simples e sem diálogos. Uma senhora grávida e rica perde tempo tocando piano sozinha, assistindo à tevê em uma tela gigantesca, até que decide nadar. Na piscina particular, dá de cara com uma baleia cachalote. No final da obra, há igualmente uma pequena passagem, em que cetáceos de brinquedo surgem nas mãos de um menino. Saboreando o livro de cabo a rabo, ambas funcionam como prefácio e posfácio elucidativos.

"Havia nessas cenas algo simbólico que dialogava bem com as demais histórias do livro, e eu dei carta branca para o Rafa desenhá-las como quisesse, embora eu também tenha contribuído um pouco para inventá-las. Elas surgiram um pouco por causa do nome do livro, e não o contrário. O título foi uma das primeiras coisas que decidimos", diz Galera.

No miolo das historietas, cinco narrativas de mais fôlego. Há a história de Xu, grande autor chinês – capaz de recitar Beckett em inglês –, que curte sua decadência em São Paulo. Depois de um incidente, ele é acusado de matar seu melhor amigo. Há Hermes, um escultor recluso que acaba se autointepretando em um filme B. Já Vitório é atendente em uma loja de ferragens e praticante do bondage, fetiche que consiste em amarrar e imobilizar o parceiro. O bon-vivant Rique é expulso da casa do tio e se manda, sozinho, para a Europa. E o casal recém-separado Túlio e Vita – ele um escritor falido e depressivo e ela uma mulher semi-esquizofrênica –, que têm na filha pequenina o único laço.

Apesar de as histórias não se cruzarem, há pontos em comum entre elas: a situação de seus personagens-chave, em nítida decadência e que procuram álibis para continuar a jornada da vida. É como uma baleia que surge na superfície para respirar, mas que, lenta e constantemente, submerge, afunda. "Há um tom melancólico, mas eu não diria que é pessimista, nem de lamento. Há talvez uma certa resignação nas histórias. Em vez de transformações radicais em suas vidas, os personagens se compreendem um pouco melhor, mas continuam sendo essencialmente os mesmos", explica Galera.

A questão das escolhas pessoais na formação de identidade, mote principal de Mãos de Cavalo, também está presente. O escritor paulista, radicado no Rio Grande do Sul e "re-radicado" em São Paulo, diz também que as histórias nasceram de uma reunião de ideias. "Foi como uma longa conversa sobre os personagens. O processo foi quase improvisado em alguns momentos", diz Galera, que trabalha em um novo romance, ainda sem data de publicação.

Serviço:

Cachalote (Quadrinhos na Cia., 280 págs., R$ 45). Lançamento com Daniel Galera, Rafael Coutinho, Daniel Pellizzari e Rafael Grampá. Itiban Comic Shop (Av. Silva Jardim, 845), (41) 3232-5367. Hoje, às 19 horas. Entrada franca.

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