
Ninguém escreve como Sérgio SantAnna no Brasil. O carioca talvez seja o contista brasileiro mais importante da atualidade. Transgressor, experimental, inclassificável é o que geralmente se diz de sua prosa incomum, surgida no auge do udigrudi carioca da década de 1960.
Seus romances, contos, poemas, novelas e peças de teatro romperam tradições e derrubaram barreiras entre alta e baixa cultura, entre popular e erudito, numa linguagem descarnada tão reconhecível quanto escorregadia, que influenciou inúmeras gerações de escritores.
Acontece que neste seu recém-lançado livro, O Homem- Mulher (Companhia das Letras), o choque nasce da excelência, precisão e até delicadeza dos textos, cujos temas centrais são amores difíceis.
A prosa de SantAnna nos 19 contos do volume pode surpreender até seus leitores mais fiéis, acostumados com seu experimentalismo medido. Pode também servir como porta de entrada para não iniciados na obra deste autor incomum, que venceu o prêmio Jabuti em 2003 por O Voo da Madrugada e só não repetiu a dose ano passado porque um dos contos do livro Páginas sem Glória (Companhia das Letras) não era inédito (o prêmio acabou ficando com Diálogos Impossíveis, de Luis Fernando Verissimo).
O conto que dá título a O Homem-Mulher, sobre um crossdresser festivo, é uma porrada. A história sobre uma vendedora de lencinhos bordados que desperta um grande amor nas ruas do Rio de Janeiro provoca qualquer um que tenha pretensão de fazer ficção para o cinema. O argumento e o roteiro estão prontos no texto, com direito até a uma felliniana visita de uma baleia à praia do Leblon.
O mamífero aparece em outro conto, "Melancolia", no qual um homem se lembra de um sonho em que beija uma mulher estranha, que compartilha com ele a experiência visual. A simples ameaça do beijo é o bastante para provocar "uma saudade tão intensa" pelo resto da vida do protagonista.
O ponto alto do livro é obscuro conto "O rigor formal". A voz narrativa é feminina; a mulher de um famoso escritor que relata em uma carta um adultério com um estudante que pesquisa a obra do marido.
Um exercício de leitura divertido é perceber o jurista "mentido" na ficção de SantAnna. Seu texto é cuidado e palavroso, sem perder, no entanto, o ritmo e a elegância.
Toda prosa de SantAnna é eriçada por um erotismo contundente. Há um elemento quase pornográfico, com algumas das mais inspiradas e explícitas descrições de atos sexuais dos últimos tempos. Um entusiasmo de estreante que não soa forçado para um autor de 72 anos.




