Não há nada, na vasta e bem documentada biografia dos beats, indicando que tenham sido diretamente influenciados por John Fante. Não consta que Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Neal Cassady, William Burroughs e os carcamanos Lawrence Ferlinghetti e Gregory Corso tenham lido Fante. Quando o movimento beat surgiu, no pós-guerra, os livros da saga de Arturo Bandini estavam esgotadíssimos. Kerouac e Cassady frequentaram a Biblioteca Pública de São Francisco, mas não lhes aconteceu milagre igual ao que contemplou Charles Bukowski, na biblioteca pública de Los Angeles. O próprio Bukowski descreve, no prefácio à reedição de Pergunte ao Pó, escrito em 1979, o que se aproxima de uma iluminação religiosa :
"Então um dia puxei um livro e lá estava. Fique parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim."
Bukowski não pertenceu ao movimento beat, apenas começou a imitar seus cacoetes, mais no estilo de vida do que no estilo literário. Mas, por um destes equívocos da mídia, que assumem um efeito "bola de neve", consagrou-se que Bandini e os beats eram irmãos de alma (talvez até o fossem, na sua ânsia de sensações e liberdade).
Bukowski afirma que Pergunte ao Pó salvou sua vida. Reciprocamente, Bukowski salvou a vida dos primeiros romances de John Fante que, por sua recomendação, foram relançados a partir de 1980 pela editora Black Sparrow. Foi um acaso genial: sem o encontro daquele exemplar único e surrado na biblioteca de Los Angeles, a Saga de Arturo Bandini estaria perdida para toda a eternidade. Perguntem ao pó . . . (RM)



