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Literatura

Berlim é uma festa

As peripécias do jovem e inexperiente Ernest Hemingway (1899 – 1961) na capital francesa deram origem a textos esparsos, descobertos nos porões do hotel Ritz somente depois de sua morte. Em livro, viraram Paris É uma Festa, retrato sedutor tirado à luz da década de 1920. Não muito longe dali, um jovem e experiente Joseph Roth (1894 – 1939) palmilhava outra cidade-símbolo do século passado. De suas observações, surgiu Berlim (Tradução de José Marcos Macedo. Companhia das Letras, 208 págs., R$ 35), o 12.º título da série Jornalismo Literário.

Ao contrário de Hemingway, que tinha artistas célebres como personagens – Francis Scott Fitzgerald, James Joyce e Ezra Pound foram alguns deles –, Roth fala sobre pessoas comuns, figurantes na órbita da protagonista Berlim. "O que eu vejo é o traço ridiculamente discreto no semblante da rua e do dia", escreve no capítulo que abre o livro, "uma criança que brinca na calçada com bolinhas de gude, observa o corre-corre metódico dos adultos e, repleta de pendor à ociosidade, não faz idéia de que já representa o ápice da Criação, mas em vez disso anseia por ser adulta".

A fidelidade aos personagens sem nome e a fé no valor das banalidades cotidianas, "somente as miudezas da vida são importantes", não impediu Roth de ter seu naco de celebridade no meio cultural alemão, coexistindo ao lado de ilustres como Tho-mas Mann e Robert Musil. Jornalista de coração, se dizia iludido pela letra de fôrma e via a tipografia como "visão de mundo dominante".

A transição para o universo literário ocorreu com a ajuda do amigo Stefan Zweig (1881 – 1942), escritor conhecido por considerar o Brasil"o país do futuro". Alberto Dines, jornalista e biógrafo de Zweig, assina o posfácio de Berlim e afirma que a trajetória de Roth "é um modelo de integração de jornalismo com literatura". Em sua vida profissional, definir onde termina um e começa o outro pode ser uma tarefa complicada. É comum ver o "periodismo" ser encarado como uma arte menor, daí os jornalistas buscarem o prestígio por meio da produção literária. O que movia Roth, porém, nada tem a ver com isso.

Ele inspirava e expirava jornalismo. Ao fim do expediente na redação, ia às ruas para vender a edição do dia. "A literatura aconteceu por acaso quando os fatos exigiram uma nova forma de expressão", afirma Dines. Seu interesse na atualidade, mais a verve para a escrita, tra-balharam a favor do que se pode chamar "estética do fato", matéria de que é feito o jornalismo literário ou new journalism, que ainda não tinha nome nem características definidas. Dines diz que Roth desenvolveu seu talento no gênero feuilleton ("folhetim" em francês), pouco conhecido no Brasil e diferente do folhe-tim como romance em capítulos que a imprensa costumava publicar. "Seria um ‘segundo caderno’ não necessariamente separado do corpo do jornal mas di-fe-renciado pelo estilo autoral e pela densidade."

É curioso ver como o embate entre os noticiários político e de variedades já se desenhava naquela época. Em uma carta ao editor, Roth dizia "Eu não sou um aperitivo nem uma sobremesa, sou o prato principal. (...) O que as pessoas procuram em um jornal é a minha parte. (...) No entanto, nas redações, olha-se Roth como um excêntrico que só os grandes jornais conseguem sustentar. Estão muito enganados".

Pela relação que manteve com Berlim, relatando peculiares culturais e sociais de maneira crítica, o autor nascido em Brody (hoje parte da Ucrânia) se aproxima de outro mestre do jornalismo narrativo: o americano Gay Talese, autor de Fama e Anonimato e um dos maiores cronistas que Nova Iorque teve. Em Talese como em Roth, predomina um tom paradoxal de envolvimento desapaixonado.

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