
"Quando há tantos filmes e tão poucos prêmios...", foi logo dizendo o inglês Mike Leigh, antes de começar a anunciar os premiados da 62.ª edição do Festival de Berlim, no último sábado. Era um sinal: de indecisão para uns, de qualidade para outros, mas certamente de alívio para o alemão Dieter Kosslick. A decisão do júri da Berlinale, presidido por Leigh, distribuiu seus nove prêmios por oito filmes, dando um aval para uma seleção que priorizou obras, em sua maioria, de diretores sem muita projeção internacional. E dando um aval ainda ao trabalho de Kosslick, diretor do festival, tão criticado no ano passado.
À frente da Berlinale desde a edição de 2001, Kosslick foi responsável pelo crescimento do festival, sobretudo no European Film Market, seu braço dedicado à negociação de filmes entre distribuidoras e produtoras. Mas ele é apontado, também, como o "culpado" por afastar da competição de Berlim os grandes nomes do cinema mundial.
Enquanto o último Festival de Cannes contou com diretores do porte de Terrence Malick, Pedro Almodóvar, Lars von Trier, Nanni Moretti e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne na disputa pela Palma de Ouro; e o de Veneza teve Roman Polanski, George Clooney, David Cronenberg, Aleksandr Sokurov e William Friedkin brigando pelo Leão de Ouro, em Berlim, os únicos cineastas que poderiam se dizer realmente renomados internacionalmente eram os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani.
Curiosamente, talvez não por acaso, o filme dos Taviani, Cesare Deve Morire, ganhou o Urso de Ouro. "Ganhar o prêmio em Berlim é muito importante, talvez o mais importante de todos, porque este filme é diferente de outros filmes. Foi um tipo de filme novo para a gente", disse Paolo Taviani, na entrevista coletiva que se seguiu à cerimônia de premiação. "Nós viemos para Berlim pensando em como seria importante que o filme fosse reconhecido pelo júri, mas também pensando o quanto já era bom ter nossa obra na competição de um festival em que os problemas do mundo são refletidos."
Questões sociais
Cesare Deve Morire foi rodado dentro da prisão de segurança máxima de Rebibbia, em Roma, utilizando detentos como atores, numa montagem do espetáculo Júlio César, de William Shakespeare. O resultado é uma obra que aproxima a ficção da realidade e que se destaca pela força de sua abordagem política, os tais "problemas do mundo" que são refletidos em Berlim. Nos últimos anos tem sido assim na competição do festival: com poucas exceções, questões sociais e políticas parecem contar mais do que as artísticas.
Não se trata de criticar a qualidade dos filmes deste ano que foram, na média, bem melhores do que nas últimas edições. O problema, para quem critica Berlim, é fazer uma seleção baseado em temas e não apenas no bom cinema.
Vencedor do Grande Prêmio do Júri, Just the Wind trata do preconceito e do assassinato de ciganos na Hungria. O Urso de Prata de melhor direção, por sua vez, foi para o alemão Christian Petzold, por Barbara, um filme sobre o esforço de uma médica para fugir da antiga Alemanha Oriental. A congolesa Rachel Mwanza, ex-menina de rua, foi escolhida melhor atriz por interpretar uma garota obrigada a lutar na Guerra Civil de seu país em War Witch. E o dinamarquês Mikkel Boe Folsgaard ficou com o Urso de melhor ator por seu papel de monarca em A Royal Affair, um filme histórico que mostra como as ideias iluministas demoraram a modificar uma Dinamarca feudal.
Português
Já um filme como Tabu, do português Miguel Gomes, que foi escolhido o melhor pela crítica, recebeu do júri somente o Prêmio Alfred Bauer, para obras inovadoras. No palco do Berlinale Palast, onde a cerimônia de premiação foi realizada, Gomes misturou surpresa e ironia ao declarar: "Estou um pouco confuso com este prêmio de inovação. Minha intenção era fazer um filme à moda antiga". Coprodução entre Portugal, Brasil, França e Alemanha, Tabu é uma obra em preto e branco, metade dela sem diálogos, apenas com narração, e que trata de um romance surgido numa Moçambique colonial, décadas atrás.
Kosslick, claro, não pode ser "culpado" pelas decisões do júri que, tirando a quase esnobada em Tabu, pareceu bastante coerente , mas deve ser questionado pelo que o festival se tornou. No ano passado, houve um movimento entre produtores, repercutido pelos jornais locais, pedindo sua saída da Berlinale. Mas o efeito foi inverso: em dezembro, o governo alemão renovou o contrato de Kosslick até 2016. Foi um sinal de que a política, como sempre, tem mais força do que o cinema.



