
A comparação faz sentido. O parisiense David Foenkinos tem mesmo algo do nova-iorquino Woody Allen, cineasta de Maridos e Esposas (1992). Não é tão engraçado quanto, mas é igualmente neurótico. E investe quase toda a sua energia na autodepreciação.
No romance Quem Se Lembra de David Foenkinos?, que a Rocco acaba de lançar no Brasil, o autor continua fazendo referências a si mesmo sem explicitar o quanto há de fato na sua ficção.
O protagonista do novo livro é um escritor chamado David Foenkinos que teve sucesso com O Potencial Erótico de Minha Mulher tal qual o autor de carne e osso , mas agora vive uma fase obscura, em que o público e a crítica não se interessam pelo que faz. Ele foi esquecido. Seu casamento está em crise tema também do romance anterior, Em Caso de Felicidade e sua criatividade, em baixa.
Sem ideias, ele leva a vida sentindo pena de si mesmo, entretido com aventuras extraconjugais (suas e de sua mulher médica) e com a carreira de tenista da filha (ele tem certeza de que ela vai vencer o torneio de Wimbledon).
Uma das poucas coisas que animam sua rotina modorrenta é viajar para a Suíça. Por algum motivo que não sabe explicar muito bem tem a ver com as mulheres e com o clima do país , ele vai a Genebra como quem passa uma temporada na praia, ao sol. E volta de lá corado e disposto.
Numa dessas viagens de trem, ele transita entre vagões e tem uma ideia fantástica para um romance. É fulminado por ela, mas é incapaz de retê-la na memória. Está certo de que a inspiração resolveria sua crise profissional, mas não consegue lembrar do que ela tratava.
É preciso reconhecer que Foenkinos consegue entreter bem o leitor. Você o acompanha por mais de 150 páginas porque quer acompanhá-lo e quase nada acontece. Na verdade, a tal ideia mirabolante para o livro é revelada no fim e é mesmo muito boa (além de ser romântica). Dá para dizer que ela faz valer a leitura de Quem Se Lembra de David Foenkinos?
Existem piadas engraçadas pipocadas na história. Uma delas aparece quando alguém pergunta, no mercado, "O senhor é David Foenkinos?". Ele se sente confuso e pensa: "Ninguém jamais me perguntara se eu era eu".
Outro talento do escritor é escrever sobre temas difíceis com humor, fazendo rir ao mesmo tempo que bota o leitor para pensar em coisas que, em geral, não se quer pensar.
Sobre o ocaso de seu casamento, Foenkinos (o narrador) se surpreende ao perceber que ele e a mulher esqueceram os momentos bons que viveram. Naturalmente, eles deixaram de ser as pessoas apaixonadas que viajavam para países estrangeiros no início da relação. Sobre sua cara-metade, o personagem atesta: "Não há nada mais estranho do que ver com frequência alguém que nós esquecemos".
O casal não sente mais atração um pelo outro. A sensualidade morreu. Eles se encontram numa área que Foenkinos define como "amimor", o espaço entre o amor e a amizade. Os dois se querem bem, mas não conseguem ser felizes juntos. É quando o romance assume um tom doce e também amargo (ou acre-doce).
A certa altura, fazendo um balanço sobre a situação em que se encontrava, ele oferece um resumo das angústias que sente: "Não escolhi me tornar escritor, e não escolhi não ter mais imaginação. Não escolhemos nada, afinal, nós nos ajeitamos da melhor maneira possível com o que nos dão na partida". Isso não é regra, há quem diga que escolhemos ou inventamos o que desejamos, mas mesmo assim é uma forma interessante de apresentar o problema e equivale a dizer que cada se vira com o que tem.
Foenkinos, por exemplo, se vira muito bem.
* * * * *
Serviço
Quem Se Lembra de David Foenkinos?, de David Foenkinos. Rocco, 160 págs., R$ 28.




