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mundo dos bichos

Campeões por fora e frágeis por dentro

Para preservar características da raça e satisfazer consumo, animais manipulados são mais suscetíveis a doenças genéticas

Em 2007 uma noticia "brilhou" em meio às reportagens científicas. O Ministério da Ciência e Tec­­nologia da Coreia do Sul divulgou imagens de gatos fluorescentes, que brilhavam no escuro. O feito bizarro foi possível graças a uma alteração genética nos bichos: a inclusão de um gene de uma espécie marinha que tem essa propriedade. A técnica, conforme defenderam os coreanos, foi pensada não para produzir gatos brilhantes, mas para verificar o sucesso na inserção de genes em animais e no desenvolvimento de terapias genéticas contra doenças – humanas – ainda sem cura. A intervenção do homem nas características genéticas de animais domésticos – em especial cachorros e gatos – move um mercado especializado e suscita discussões éticas. Isso porque, na maioria dos casos, os animais são "moldados" de acordo com o gosto de seu dono, que por sua vez visa o lucro com a obtenção de uma linhagem "mais pura" em detrimento da saúde e da evolução natural do animal.

"Ao buscar a raça pura, você perde em variabilidade genética. É necessária essa variabilidade porque doenças novas podem aparecer. Se o bicho for puro, ele vai ter maiores chances de ser afetado. É como colocar todos os ovos em uma só cesta", explica Jo­­sé Fernando Garcia, especialista em genômica de animais do­­mésticos. Um cão pastor alemão puro, diz o professor, que apresenta todas as características visíveis de sua raça, pode tornar-se um campeão em algum concurso – e render dinheiro ao seu criador. Na busca pela manutenção da linhagem, muitas vezes os chamados "cachorreiros" – criadores não licenciados – fazem cruzamentos consanguíneos, e a chance de um animal nascer com problemas físicos e genéticos é grande. O pastor, por exemplo, pode apresentar um problema chamado displasia coxofemural, que afeta os movimentos das pernas traseiras. Paulo Parreira, professor de Zootecnia da PUCPR, observa que, além do lucro, o interesse pelo diferenciado ou pelo que é mais cômodo também aplica-se a esse tipo de manipulação genética. A raça poodle toy, por exemplo – um poodle que cabe no bolso da camisa – é artificial e foi criada para agradar aos consumidores.

"Acho que tudo que é movido por moda, pelo interesse do ho­­mem, sem levar em consideração o bem estar do animal, é negativo. Se formos ver no padrão da raça poodle, o ‘estilo’ micro toy não existe. Ele seria o refugo se falássemos em produção animal, seria o descarte do produtor, mas possui muito valor de mercado hoje", explica o professor, especialista em comportamento de cães e gatos.

Essa corrente de manipulação genética seria uma espécie de anti-darwinismo, já que iria contra a evolução natural das espécies. "A pressão seletiva que está sendo exercida não é a pressão do ambiente, é apenas uma modificação genética imposta", define Parreira.

Profissionais

A clinica Pró-Genie é uma das instituições veterinárias de Curitiba voltadas para a reprodução canina. Segundo Monica do Amaral, só­­cia da empresa, o foco é o facilitamento da reprodução e o controle de doenças genéticas, o que não acontece no que ela chama de "fábricas de cachorros".

"Há cães com incapacidade de acasalar, seja por motivos físicos ou psicológicos. Muitas vezes esses animais estão tão humanizados que se esquecem de seus extintos".

Também veterinária e criadora, Monica defende a profissionalização e a fiscalização dos canis para evitar o nascimento de cães com problemas genéticos. "Nós pensamos na saúde do animal, buscamos melhoramentos que aproximem o animal de seu pa­­drão, mas que também extinguam possíveis problemas", diz.

As raças mais suscetíveis a problemas genéticos são as chamadas "raças de companhia", como poodle, lhasa apso, bulldog, sharpei, maltês e yorkshire.

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