
A noite de hoje se insinua com nuances históricas. Quando a Relespública soar o primeiro acorde no palco do Guairão, um novo capítulo da música curitibana passará a ser contado. O tradicional espaço ocupado na maior parte do ano por artistas do primeiro time em âmbitos nacional e internacional, abre uma brecha, que não é mera concessão, a uma banda local que soma 19 anos de uma ziguezagueante trajetória, sempre em busca de sonoridade e discurso próprios.
A Reles, como a banda também é conhecida, articulou esse show para lançar o seu quinto álbum, Efeito Moral, com 14 canções. A proposta meio que se desnuda no título. Fábio Elias, guitarrista, cantor e autor das canções, tem na sonoridade da banda um embalo para enunciar discursos críticos, seja a respeito da violência, poluição, amores falidos, homens-bombas, desequilíbrios humanamente perceptíveis nesta contemporaneidade. O pano de fundo, as canções, se fazem por meio de uma mescla de rock e folk. "A textura sonora não é 'suja', justamente para que as pessoas prestem atenção nas letras", diz Elias.
O trio curitibano segue unido, além do elo musical, pelo fator amizade. Fábio Elias, Ricardo Bastos (baixo) e Moon (bateria), todos com 32 anos, lá num passado já distante, quando tinham apenas 13, em vez de jogarem bola, decidiram fazer uma banda insipirada, sobretudo, nos ingleses do The Who e nos paulistas do Ira! Os acordes iniciais dialogavam com as referências. Mas o tempo iria revelar estradas e dicções inconfundíveis. "Hoje, o nosso som é reles-and-roll", define Elias.
Esse reles-and-roll, evidente no álbum Efeito Moral, vem sendo gestado (principamente) no palco do Empório São Francisco, bar curitibano onde a banda se apresenta todas as quartas-feiras há dois anos. Ali, a Reles executa repertório autoral ("é o nosso Laboratório São Francisco"), além de covers. Curioso é que o público, ao invés de gritar "Toca Raul (Seixas)", pede "Toca Reles", sobretudo quando são apresentadas versões de músicas de Raulzito, Roberto Carlos, Beatles, The Who ou Ira! "Conseguimos derrubar o chavão de que o público prefere covers a canções próprias", comemora Moon.
Um dos objetivos do trio é reproduzir o clima do Empório no Guairão. "Apesar do Guaíra ser um local onde as pessoas sentam em cadeiras, não será surpresa se todo o público ficar em pé, dançando e cantando com a gente", observa Bastos. A "relesfesta" abrirá espaço não apenas para o quarto elemento (o público), mas para convidados. Ao refazer a canção "A Minha Menina", de Jorge Ben Jor, a banda insere "Oração de um Suicida", do Blindagem. Hoje à noite, os guitarristas Alberto Rodriguez e Paulo Teixeira, além do vocalista Ivo, do Blindagem, tocam com a Reles essa canção-homenagem.
Garoa e solidão
Um dos muitos renascimentos da Reles aconteceu em 2002, após uma temporada de dias ruins na capital carioca. De volta à cidade natal, surgiu "Garoa e Solidão", uma inusitada e certeira leitura de Curitiba. A canção foi incluída em um dos quatro álbuns do projeto Os 4 Elementos da Música Paranaense, da RPC. "A banda começou a acertar a dicção a partir disso", reconhece Elias. No ano seguinte, viria o álbum As Histórias São Iguais, repleto de hits, como "Nunca Mais" e "Marcianos", entre outros, cantados em coro pelos 600 freqüentadores do Empório todas as quartas-feiras e que devem viabilizar momentos de euforia na noite de hoje.
Do seminal álbum independente E O Rock And Roll Brasil? (1998), passando pela desastrada experiência com a multinacional Universal, que rendeu um fruto gorado (o álbum O Circo Está Armado, de 2000, que não aconteceu), incluindo a gravação do MTV Apresenta (2006), até este Efeito Moral, o trio analisa que o melhor momento do grupo é agora. "Bancamos este álbum e, quer saber: hoje, é melhor 'ser' independente do que 'sair' por uma grande gravadora. Se a empresa não investir, o álbum não acontece e o artista se torna refém (de contratos)", desabafa Bastos que, ao lado dos parceiros, estoura foguetes para comemorar o controle completo, da produção à divulgação, do trabalho novo.
Amanhã, depois de uma possível noite bem dormida após esse feito de mais de (previstos) 120 minutos no Guairão, Elias, Bastos e Moon seguem rumo a Salvador, onde se apresentam no fim de semana ao lado de um antigo ídolo e hoje amigo, o vocalista Nasi, ex-Ira! De fãs, passaram a dividir o palco com a extinta banda paulista que, em seus derradeiros pulsares, requisitava a Reles para fazer os shows de abertura. E, da mesma maneira como o Ira! reconhece o talento do trio, a Reles faz questão de bater palmas para outras bandas locais, com pouca quilometragem, mas inegável talento: Charme Chulo, Sabonetes, Mordida e Anacrônica.
Samuel Rosa, do Skank, que canta na faixa "Tudo Que Eu Preciso", só não estará hoje no Guairão porque a banda mineira também faz lançamento de um novo projeto. Mas haverá participações mais do que especiais, propositalmente omitidas neste texto, até para estimular o público curitibano a presenciar o show de uma banda importante que, apesar de tantos acidentes (incluindo a morte de um integrante, Daniel Fagundes, em 1994), segue a cantar a música que empresta título a esta reportagem e é a idéia-força da Reles: "Capaz de Tudo".
Serviço
Relespública: Efeito Moral. Teatro Guaíra (R. XV de Novembro, 971). Hoje, às 21 horas. R$30 (platéia) e R$20 (1º e 2º Balcões). 50% de desconto para portadores do Cartão Teatro Guaíra, Clube do Assinante Gazeta do Povo e Carteirinha do Professor. Mais informações (41) 3304-7900 e 3304-7999.



