
A Cia. dos Atores tornou-se referência do teatro de grupo dedicado à pesquisa no país, pela inquietação de seus fundadores, que gerou espetáculos emblemáticos como Melodrama e Ensaio.Hamlet. A saída da atriz Drica Moraes e, principalmente, do diretor Enrique Diaz, no ano passado, foi um baque. Mas os atores se reorganizaram para celebrar 25 anos de grupo, com três espetáculos independentes entre si.
Susana Ribeiro codirige Conselho de Classe ao lado de Bel Garcia. A dramaturgia do Jô Bilac coloca em xeque a educação no país. "Jô busca a compreensão de todo um sistema. As relações humanas são a base para a discussão, o que não deixa o discurso ser baseado em clichês", comenta Susana.
O espetáculo se passa em uma escola pública no centro do Rio de Janeiro, durante uma reunião de professores. "Quando vimos o quão pertinente era o tema para os dias atuais, nos sentimos responsáveis em abrir o jogo cênico de um ponto de vista mais humanizado, colaborativo, querendo dialogar", conta a diretora.
A desconstrução formal e o equilíbrio entre humor e drama, marcantes na trajetória da companhia, estão presentes. Junto a um tom mais realista.
Solos
Outro trabalho é Como Estou Hoje, um diálogo travado com o público sobre hábitos construídos a partir de modos de vestir. O projeto nasce do figurinista e ator Marcelo Olinto. "A simbiose entre o ator, o seu corpo e a roupa desperta múltiplas possibilidades", sugere.
Olinto é dirigido por João Saldanha, autor também do texto, para quem o espetáculo carrega a indignação com posturas repudiáveis no ser humano. "A pesquisa decorreu dos fatos que estavam acontecendo naquele momento e que, para nós, artistas, são de um valor desmedido", diz Saldanha, referindo-se às manifestações populares.
Já LaborAtorial é uma performance solo do ator Marcelo Valle, com texto de Diogo Liberano e direção compartilhada entre Cesar Augusto e Simon Will, do grupo anglo-germânico Gob Squad.
"Ficamos meses colhendo referências e momentos da vida do Valle, que guardavam em comum um desejo de transformação de si e, por extensão, do mundo. Esboçamos uma performance solo que coloca em questão um projeto de homem que acreditamos estar falido", comenta Liberano.
A pesquisa rumou por territórios tão distintos quanto física quântica, astrologia, budismo, poesia e economia compartilhada, para colher olhares sobre valores e hábitos. "Essa possível autópsia ficcional ganha contornos muito pessoais. Acredito que a relação com o indivíduo é o ponto nevrálgico para se lidar com o ser contemporâneo", diz o diretor Cesar Augusto.



