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Música

Clássicos da discoteca local

O Caderno G Ideias consultou 50 pessoas, entre músicos, jornalistas e produtores, para relembrar os discos mais importantes da música do Paraná

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Há quem diga que, hoje em dia, quase ninguém mais ouve discos do início ao fim. Pelo sim, pelo não, gravadoras continuam relançando álbuns "clássicos" diretamente das épocas de ouro do disco. Eles ainda fariam as vezes de faróis em meio ao dilúvio democrático de sons em que as novas tecnologias se transformaram nas mãos de músicos ávidos por serem ouvidos.

Os paranaenses, historicamente à margem da grande indústria musical, vêm fazendo parte desses novos tempos com êxitos bem conhecidos. Mas haveria também clássicos dos pinheirais?

O Caderno G Ideias consultou 50 pessoas ligadas à música paranaense – entre músicos, jornalistas e produtores – para se aproximar do que seriam referências da discografia local.

Uma missão ingrata diante do perfil altamente diversificado dos mais de três mil discos feitos no estado identificados pelo produtor e pesquisador musical Manoel de Souza Neto, detentor do maior acervo conhecido de música paranaense. Cerca de dois mil deles estão reunidos no Musin – o Museu Independente que Neto criou para preservá-los junto a outros 50 mil documentos. O pesquisador está finalizando o "Catálogo A a Z da Discografia Paranaense", que deve trazer as capas e as fichas técnicas dessa produção, que soma cerca de 12 mil músicas.

A multiplicidade dessa discografia, na opinião de Neto, reflete a formação cultural do Paraná, e dificulta a identificação de referências que sejam consensuais. Outra razão – a principal – seria o fato de a música paranaense, durante décadas, simplesmente não ter feito sucesso.

"Quando se fala com pessoas mais velhas, elas se lembram de nomes dos primórdios do rock e do sertanejo regional, como os Metralhas Beatles Again e Nhô Belarmino & Nhá Gabriela. Eles tocavam nas emissoras de rádio todos os dias", diz Neto. "Mas, a partir do fim dos anos 1970, as gravadoras e as multinacionais dominaram as rádios e veículos de comunicação e oprimiram as cenas regionais", defende.

Paulo Hilário, fundador da Metralhas em 1961, relembra este sucesso local. "Gravávamos os discos pensando no aspecto regional, porque, para partir para um esquema nacional, tinha que morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Em Curitiba, não tinha a menor condição", diz o músico. Os curitibanos, no entanto, compravam os discos. "Tinha para vender em tudo que é lugar. E vendia adoidado, que nem pão quente. Outro dia vi um cara vendendo o meu primeiro compacto na internet por R$ 250. Estou valorizado", brinca o músico, que, curiosamente, é também autor de "O Pássaro", hit nacional na voz de Dirceu Graeser (1941-1983), em 1980. "Naquela época, a ideia era tentar um sucesso regional. Não almejávamos sucesso nacional. Quando estourou ‘O Pássaro’ nacionalmente, caiu a nossa cara", lembra. "Mas o sucesso vem e vai muito rápido."

As lembranças de Paulo Juk, baixista do Blindagem, já sugerem um cenário diferente. "Quando nós gravamos nossos primeiros discos os executivos da gravadora argumentavam com números que nós não vendíamos em casa. Tínhamos vendas maiores em São Paulo e Rio de Janeiro do que em outras cidades. Naquela época, talvez tenha faltado um pouco de bairrismo no bom sentido. Tanto que o nosso disco vendeu mais durante estes anos todos do que no período de lançamento. Faltou público consumidor local", conta o músico, argumentando que a banda surgiu na mesma época em que o rock do Rio Grande do Sul, Brasília e Rio de Janeiro ganharam força. "Lá, as bandas tinham um suporte do público local. Aqui, a gente ficava meio sozinho, não se formou uma cena, e isto refletiu no mercado."

Diferenças de avaliação à parte, Manoel Neto identifica um movimento de resistência na cena independente a partir dos anos 1990. A década também marcou a chegada – em sua avaliação, tardia – de bons estúdios à capital. Dez anos depois, os custos de produção já haviam barateado, e os meios de autopromoção já acenavam para os músicos do Paraná. "Qualquer iniciativa que o Paraná pode ter tido de adentrar a indústria fonográfica esbarrou nas muralhas da radiodifusão", avalia Neto, que identifica outro aspecto do perfil discográfico do estado: ao longo da década de 1970, os lançamentos independentes superaram os títulos lançados por gravadoras e seguiram crescendo desde então.

Com base nos discos mais lembrados entre as mais de 130 citações recebidas pela reportagem, este G Ideias tenta localizar nas próximas páginas alguns títulos que tiveram força para criar algum foco ao longo desta história. O resultado, longe de propor um ranking ou uma discografia básica da música paranaense, traz à tona alguns bons pontos de partida para entender esta história em sons.

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