Todo excesso faz mal. Carinho em excesso enjoa. Proteção demais sufoca. Fé demais fanatiza. Cuidado demais vira mania. Amor demais atormenta quem ama e quem é amado.
Mas é pela boca que os excessos mostram seus efeitos imediatamente, da forma mais didática. Todo mundo sabe que engordará e terá as consequentes doenças se comer muito sal, muito óleo ou muito açúcar. Agora, se comer muito qualquer coisa de uma vez só, o efeito aparece como no dia em que, rapazola, chupei 18 bolas de sorvete.
Era no Bar Brasil, hoje ponto de encontro famoso em Londrina, naquela época um boteco com um balcão e uma sorveteira daquelas antigas, onde o sorvete era mexido por pás rotatórias em grandes cilindros. Eram só quatro sabores, porque a sorveteira só tinha quatro cilindros, então pedi uma bola de cada sabor. Depois pedi mais quatro. Depois mais quatro. E mais quatro. E eram bolas grandes, servidas com a generosidade antiga e com alguma lambuja. Eu já estava enjoado de sorvete, mas o dono do bar ofereceu mais duas bolas de brinde, somando as dezoito das quais jamais me esqueci. Porque, antes até de voltar para casa, passei na também inesquecível Farmácia Ceará. Sei lá o que tomei, mas não melhorou: o enjôo piorou, e jamais esquecerei também que os sorvetes, de cores tão diferentes como morango, pistache e côco queimado, na sarjeta viraram um caldo cor de água suja. Vomitando, me prometi nunca mais chupar sorvete. Quebrei a promessa uma década depois, mas durante anos sentia calafrios ao ver sorvete.
Devia ter aprendido já com o caldo de cana do vô. Era menino, e ele disse que um amigo ferroviário tinha se aposentado e, talvez na falta do que fazer, tinha montado um moinho de cana no quintal. Vô colheu no seu quintal umas canas roxas mais grossas que minhas coxas, compridas como lanças medievais, e eu me senti um cavaleiro andante ao levar minha cana pelas ruas. O vô levava um feixe.
O amigo dele era negro, com um sorriso de dentes muito brancos, e suou girando a manivela do moinho. É, era a manivela, e aquilo aguçou ainda mais a sede, ou melhor, a gana de tomar garapa. Que caía da bica do moinho num enorme canecão de lata, cheio de gelo, suando como eu suaria depois de tomar sei lá quantos copos. Até suar frio. Enjoar. E vomitar, para ser levado a uma cama, onde repousei o enjôo e a vergonha. E nunca mais abusei de garapa, mas de sorvete...
Depois, talvez por serem a garapa líquido e o sorvete pastoso, não lembrei de seus vexames na madrugada em que, com Itamar Assunção, comemos, cada um, dez sólidos ovos fritos. Ele tinha dormido na minha casa, para de manhãzinha sairmos em excursão ao Nordeste, em cinco carros com uma dúzia de amigos e amigas. Então resolvemos forrar bem o bucho, como diz o caboclo. Começamos com três ovos cada um, com queijo e tomate e pão, e fomos repetindo.
Depois levamos nossos arrotos à casa de Maria Irene Vicentini para encontrar o pessoal, e lá ficamos apenas vendo a grande mesa de café colonial que os pais dela tinham preparado para a turma. Uma década depois, quando encontrei Itamar em São Paulo, perguntei se tinha voltado a comer ovos fritos, e ele nem respondeu, só fez uma baita careta...
Naquela viagem eu cometeria outro excesso em Salvador, com as comidas baianas tipicamente temperadas. Aí, na rodovia para Aracaju, foi preciso parar várias vezes para atender os pedidos urgentes de meus intestinos. Quando arranjamos pensão em Aracaju, a dona olhou minha cara exangue e perguntou se estava aperreado, nunca mais esqueci a palavra. E só de ver acarajé me dá calafrios até hoje.
Excessos. Como comer pipoca com café, ouvindo casos de assombração em noites de chuva, para depois rolar insone debaixo das cobertas, ouvindo em cada barulhinho as pegadas saltitantes do Saci ou o trote da Mula-Sem-Cabeça.
Excessos. De bolinhos-de-chuva. De pés-de-moleque. De brigadeiros. De queijadinhas e quindins. Pamonhas. Ah, tantas coisas que, por serem tão gostosas, tornam-se suplícios pelo excesso.
Como as idéias e as crenças. A diferença é que podemos lançar fora rapidinho o que entra pela boca. Já o que entra pelos ouvidos e conquista o coração...



