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Domingos Pellegrini

Fatia de melancia

No calorão do centro da cidade, o menino aponta as fatias de melancia enfileiradas e pede compra, vó, compra pra mim, vó! A mulher miúda, de sandálias de dedo nos pés embarreados, pergunta o preço. O fruteiro talha melancias sobre o tabuleiro, fala o preço e ela puxa um moedeiro, conta moedas, paga botando uma a uma na mão dele, depois escolhe uma fatia.

Pede a faca, vai cortando a parte vermelha em pedaços pequenos para a boca do menino, que come babando e olhando as outras fatias enfileiradas. Quando ele acaba, ela rói depressa onde o vermelho encontra o branco, dizendo que gosta mais dessa parte...

– Eu gosto da parte vermelha, vó – o menino fala com o queixo babado – Compra mais, vó!

Ela pega o menino pela mão, resmungando que agora só tem o dinheiro pro ônibus, ele quer voltar a pé pra casa? Eu vou, vó, eu vou a pé, ele fala já puxado por ela, virando a cabeça para ainda olhar as fatias, quando falo:

– Pega mais um pedaço pra ele, dona, eu pago.

A mulher para, me olha, o menino olhando para ela esperançoso, mas ela fala muito obrigada, moço, é gula desse guri, continuando a puxar o menino, mas ouve quando o fruteiro fala:

– Pode pegar, dona, é de graça.

Ela volta, o menino olhando as fatias.

– Deixa eu pegar, vó – ele pede e ela deixa ele escolher a fatia e comer sozinho, com pequenas mordidas na parte fina, aumentando as mordidas conforme a fatia engrossa, até morder se lambuzando, aí lembra e dá a ela a fatia toda mordida:

– A parte que a senhora gosta, vó.

Ela quase pega, aí me lança uma olhadela, fala baixinho:

– Não, obrigada, filho, já tô cheia.

Ele volta a mordiscar a fatia até a parte branca. Depois joga no caixote onde a vó jogou a primeira fatia, e olha para ela, que lhe dá um sorrisinho de aprovação, ele se apruma feito um homenzinho. Ela fala agradece o homem, rapaz, ele fala obrigado, o fruteiro fala de nada, e ela estende a mão, ele pega e se vão, mas, lá da esquina, ele olha para trás e sorri lambuzado.

Ela agacha, tira da bolsa um lenço embolado, limpa o queixo dele e também olha para nós, quase sorri, talvez tenha sorrido. Depois se enfiam na multidão passante, e só então me pergunto:

– Será que ela gosta mesmo da parte branca da melancia?

O fruteiro fala talhando mais fatias:

– Não sei, sei que tudo que Deus criou tem sentido. A casca verde é seca e protege a parte branca, que é úmida e protege a parte vermelha, que é mais úmida e macia, embalagem mais perfeita só a do côco.

Repito a pergunta:

– Mas será que ela gosta mesmo da parte branca?

Ele fica enfileirando caprichosamente as fatias, arrumando os pensamentos.

– Acho que ninguém gosta da parte branca, né, a não ser porco, que come de tudo. No sítio a gente bota casca de melancia na lavagem, a porcada come com gosto. Mas gente, nunca vi ninguém gostar. Agora...

Me oferece uma fatia:

– Quer mais uma? Esta é de brinde.

Falo que estou cheio, o que faz lembrar novamente da mulher. Ele fala olhando a esquina:

– Pois é, quem sabe também foi pra isso que Deus fez a melancia assim. Porque, pensando bem...

Sorri olhando longe.

– ...pra ela, naquela hora, o branco da melancia pode ter sido mesmo mais gostoso que o vermelho...

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