Antes de ser um "estilo de época", como era moda dizer-se durante algum tempo, o barroco foi e continua sendo o estilo que ignora todas as épocas, sem que se desconheça a existência de épocas barrocas e de épocas clássicas. Em livro modelar de 1967, agora reeditado com bela apresentação tipográfica juntamente com o volume de sua fortuna crítica, Affonso Ávila identifica uma "idade barroca mineira", representada pela escultura de Antônio Francisco Lisboa, pela pintura de Ataíde, pela música de José Emerico Lobo de Mesquita e, no que concerne à literatura, pela poesia de Cláudio Manuel da Costa (Resíduos seiscentistas em Minas. Textos do Século do Ouro e as projeções do mundo barroco. 2 vols. // Fortuna crítica de Affonso Ávila. Int. de Melânia Silva de Aguiar. Belo Horizonte: Arquivo Público Mineiro, 2006).
No que se refere ao estilo, escreve ele, o "tom superlativo" deve ser debitado (ou creditado... digo eu) "à tendência literária da época, dominada ainda pelo gosto culterano da frase, em que os efeitos estilísticos e de expressão são geralmente obtidos pelos recursos das transposições sintáticas, das imagens preciosas e redundantes". Observe-se que se trata de um universo simbólico, manifestado até no vestuário: assim, encarregado de apresentar um ultimato ao rei adversário, o diplomata apresentou-se uniformizado de duas cores: a branca, de um lado, para sugerir conciliações possíveis, e a preta, do outro lado, para indicar disposições pouco acomodatícias.
São numerosos e relativamente bem estudados os testemunhos escritos deixados pelas celebrações barrocas entradas triunfais de bispos e grandes do mundo, comemorações religiosas e cívicas, arcos de triunfo e academias literárias, um deles, por sinal, ligado à malfadada oficina de Antônio Isidoro da Fonseca e aos inícios da tipografia no Brasil: a Relação da entrada que fez... Fr. Antônio do Desterro Malheiro, bispo do Rio de Janeiro em o primeiro dia deste presente ano de 1747. Carlos Rizzini lembra que, embora a Relação da entrada tenha sido o primeiro folheto impresso no Brasil, não foi o primeiro livro publicado em português na América, o que, por inesperado que pareça, ocorreu no México, em 1710 (W.M. A palavra escrita, 3.ª ed., 1998).
O Triunfo Eucarístico e o Áureo trono episcopal, aqui estudados e fac-similarmente reproduzidos, datam, respectivamente, de 1734 e 1749. No texto do primeiro diz-se que "não há lembrança que visse o Brasil, nem consta, que se fizesse na América ato de maior grandeza". Lê-se no Áureo trono episcopal que o bispo D. Manuel da Cruz retardou até ao último momento o anúncio da data exata em que faria a sua entrada em Mariana, "para não dar lugar aos excessivos gastos de pompa e lustre, que os habitadores daquele dourado Empório da América costumam ostentar-se em semelhantes funções".
A literatura denominada "barroca", observei a propósito da primeira edição de Resíduos seiscentistas em Minas, foi, a princípio, desprezada pelos severos críticos como forma inferior de criação, ao que sucedeu o período em que, ao contrário, foi vista como forma suprema de invenção artística, beneficiando-se com a atração da redescoberta. Na verdade, os tratadistas brasileiros costumam conhecê-lo mais pela teoria pouco a pouco conglomerada em torno da idéia do que propriamente pelo contato direto com os textos e, menos ainda, com os textos brasileiros.
Contudo, antes de todos eles e de todos nós, já havia notado Baltazar Gracián, o barroco é um estilo, sim, mas não estilo literário, antes estilo de pensamento e, por decorrência, estilo de vida, idade de civilização. Os que nele procuram apenas a qualidade artística lêem-no com olhos clássicos, falseando assim automaticamente as perspectivas. Seja como for, além da sua forte tendência para a visualização do mundo exterior (traduzido em imagens, no brilho das pedrarias e do ouro, nos disfarces e fantasias, nas danças "turcas" e "ciganas", nos fogos de artifício), o mundo barroco ou a visão barroca do mundo reflete, pela primeira vez, o impacto do Tempo: é um mundo em movimento, assim como o clássico é um mundo imóvel.
Lidas isoladamente, as peças aqui reunidas parecem de incomparável originalidade e extraordinária riqueza inventiva; lidas em conjunto mais os numerosos discursos comemorativos, sermões laudatórios e relatos de festividades em honra dos grandes deste mundo e do outro, para nada dizer das aflitivas produções acadêmicas do século 18 mostram o que realmente são: uma série de "clichês" estilísticos e lugares-comuns retóricos, repetidos ad nauseam. É o vácuo intelectual absoluto. É preciso aceitar a idéia de que há bons e maus escritores barrocos, assim como os há entre os clássicos. É fina e movediça a linha que os separa: Vieira não desdenhava as agudezas e até escreveu sobre elas; nos seus melhores momentos, Rui Barbosa é modelo de barroquismo retórico; e Guimarães Rosa, e Coelho Neto, e Euclides da Cunha, além dos menores. São os nossos... clássicos.



