Na exata medida em que procuram recuperar o passado, as antologias concorrem impiedosamente para eliminá-lo, encaminhando-o para o oblívio, como se jamais houvesse existido: nessas perspectivas, trata-se de uma espécie editorial claramente anti-histórica, sob enganadoras aparências de historicidade. De tempos recentes como o Modernismo, com rica, confusa e desordenada demografia.
Walnice Nogueira Galvão relacionou uma vintena de poetas, dos quais meia-dúzia, se tanto, acrescentaram algo não só à corrente assim denominada, mas à literatura brasileira. Ela inclui Manuel Bandeira, o que seria indispensável, sem considerar, como em geral não se considera, que se trata de "modernista" temporão, mais companheiro de viagem que militante irrecusável; Vinicius de Moraes e Augusto Frederico Schmid serão "modernistas" pela cronologia ou por contigüidade, mas este último repudiou expressamente a nova escola desde 1928, enquanto o outro sempre viveu em absoluta indiferença doutrinária, o mesmo acontecendo com Ribeiro Couto e Cecília Meireles. Em suma, o Modernismo foi moderno, mas nem todos os modernos foram modernistas (Walnice Nogueira Galvão, sel./org. Modernismo. São Paulo: Global, 2008).
Modernistas programáticos foram Mário de Andrade e Oswald de Andrade, que, como todo cristão-novo, exagerava nas práticas piedosas, a exemplo de Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo, "modernistas" de atitude mais do que de convicção, este último, aliás, prolongando por artifícios a própria modernice. Walnice Nogueira Galvão pôs muito sabiamente a ênfase nos aspectos históricos, sem cuidar da autenticidade, digamos, estética dos poetas: "A nova poesia reivindicava a libertação. Com isso, queria estourar os moldes até então usuais, constituídos pelo verso metrificado, pela rima e pela forma fixa soneto, balada, ode, etc. Depois haveria um regresso, embora parcial, e até Drummond faria sonetos. Renegou também a alienação dos poetas com relação à empiria brasileira e dedicou-se tanto a representar o país quanto a resgatar cronistas e viajantes o que explica tanta gente versejando sobre a história do Brasil. Havia a busca de um senso de brasilidade. Abominando o provincianismo, aspirava ao cosmopolitismo: em fórmula feliz (mais uma vez) de Oswald, urgia substituir a poesia de importação pela poesia de exportação. O destaque dado ao poema-piada aponta para a valorização do coloquial, do desataviamento da linguagem e do rebaixamento do estilo, em reação de dissonância do Parnasianismo e do Simbolismo".
Alguns poetas, conclui ela, "ou abandonaram o credo, ou de todo a lira; em muitos, o Modernismo foi epidêrmico e fugaz, ou então foi a vocação poética que minguou". Triste destino das escolas e das vanguardas, que só sobrevivem quando desaparecem, se o paradoxo for permitido, transformando-se, por sua vez, naquele "passado" que repudiavam. Se, como fica dito, Walnice Nogueira Galvão recuperou uma vintena de poetas do Modernismo, a conta de Ivan Junqueira para os anos 30 é bem menor, assim mesmo à custa de repetições (Raul Bopp. Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Cecília Meireles, etc.), que já estavam na antologia anterior da mesma editora (Coleção Roteiro da Poesia Brasileira, 2008).
Parece evidente que houve cronologicamente poetas modernos no decênio de 1930, sendo mais do que evidente a respectiva continuidade, técnica e estética com o Modernismo de 1922 (que, enquanto escola, movimento ou época literária, extingüe-se em 1945 (W. M. A Idéia Modernista. Rio: ABL/Topbooks, 2002). Nas palavras de Ivan Junqueira, "herdeira direta das conquistas léxicas, prosódicas e estético-formais alcançadas pelo movimento modernista de 1922, a poesia que se escreveu entre nós durante a década de 1930, caracterizava-se, acima de tudo, por uma distenção da linguagem e do ritmo, o que pode ser entendido como uma inevitável conseqüência histórica e literária das propostas que integravam o ideário transgressor da Semana de Arte Moderna". Na verdade, houve uma mudança de paradigmas: pobre, se não indigente no que se refere à prosa, o Modernismo, em sua essência profunda, foi um movimento poético, sendo de poesia a produção predominante na primeira década, pertencendo a ficção a década seguinte.
O Modernismo foi paulista, tendo em São Paulo o seu foco de convergência e irradiação, mas a década de 1930 pertenceria ao Nordeste, embora boa parte escrita no Rio de Janeiro. O romance de 1930 seria documentário e político, mais designadamente esquerdista e "social", palavra, àquela altura, sinônima de socialista. A simples "pesquisa estética" já não satisfazia: os romancistas de 1930 não queriam descrever o mundo mas reformá-lo sem qualquer inovação nas técnicas narrativas.



