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Wilson Martins

Lirismo menor

Segundo os manuais, a matéria da poesia lírica são as emoções pessoais do poeta (ser poeta é a primeira condição), toda a questão consistindo em saber se de fato existem emoções puramente estéticas (Laurence D. Lerner). Em outras palavras, a poesia não está nas emoções, mas na sua expressão literária: muitos há, dizia o desencantado Carpeux, a quem os deuses deram o sentimento sem lhes dar o verso, ao que, acrescento por minha conta, não são menos numerosos os que sucumbem na luta inglória pela expressão.

Bem entendido, os grandes poetas, aqueles cuja grandeza ninguém contestaria – Dante, Shakespeare, Camões, na enumeração ocasional de Jorge de Sena – são as exceções, não a regra das literaturas, gabarito que torna todo o resto menor por definição, sem que isso implique em qualquer julgamento de valor: são espécies diferentes. Há mesmo, em nossa pequena história, um episódio ilustrativo: Manuel Bandeira, fingindo modéstia, declarou-se poeta menor, mas não queria ser acreditado sob palavra, armadilha em que caiu o rigoroso Jorge de Sena quando, na presença e a propósito do poeta, entregou-se a algumas considerações sobre poesia maior e poesia menor, "afirmando que se pode ser menor e ser grande ao mesmo tempo [...] pelo que o ser-se maior ou menor não era, sem mais, achar que uns eram maiores do que os outros".

Assim, um grande Bandeira não era poeta maior na escala de um Shakespeare, de um Camões, de um Dante, de um Milton... ("O Manuel Bandeira que eu conheci e que admiro". Estudos de cultura e literatura brasileira, 1988). Em conversa posterior com o poeta, revelou ainda Jorge de Sena, "eu senti, sem que ele m’o dissesse, nos gratos comentários que me fez, que ele não tinha gostado daquelas sutilezas de ser ‘menor’, ainda que ‘grande’ sem dúvida". Os poetas são irritadiços por natureza, dizia Horácio, supremo legislador do Parnaso, fonte de todo classicismo ocidental, fundado na hierarquia dos gêneros: a epopéia era "superior" ao lirismo, a tragédia à comédia e a poesia à prosa. Note-se, para exemplificar, que, entre os grandes poetas acima referidos, há dois épicos e um trágico (que, aliás, não recusava a comédia), sem que se ignore, no interior de cada gênero, as diferenças de qualidade entre os poetas: é possível ser maior ou menor, havendo circunstâncias que podem eventualmente fazer grande um poeta menor.

Tudo isso para colocar nas devidas perspectivas estas considerações sobre o lirismo menor em alguns poetas que, se não alcançam o nível de grandeza(como Manuel Bandeira tampouco alcançou), situam-se em plano de indiscutível qualidade literária – cada um em sua forma peculiar de expressão. Entre eles, Antônio Brasileiro (Dedal de areia. 2001-2004. Rio: Garamond, 2006) vê a realidade sob as espécies de mito literário, como no belo poema "O Cavaleiro", no qual D. Quixote aparece como figura emblemática do poeta (e vice-versa): "Um é a soma dos cavaleiros / e mais um. O do / semblante triste, não é bem este / triste semblante. É só amante / da imensa armada que sequer existe. / Mas não é triste. Não. / Não é triste". As duas linhas de inspiração confluem afinal: "Vai na alma e grande dor do Cavaleiro: saber-se inócuo contra as grandes dores. [...] E senta-se na relva, olhos / vagos: o que é o homem, / senão o que querer grande entre os seus? [...] Mas não se formula nada. / Apenas chora. // ‘Senhor, estais tristonho’. / Não, Sancho. Apenas choro’. ‘Não entendo, Senhor’. / ‘Sim. Não entendes’".

Antônio Brasileiro tem outras cordas na sua lira, se é que lhe falta a legendária "corda de bronze" da poesia épica, mas tem inegavelmente a corda drummondiana do humor: "Se alguém me espera? / Quem dera. // Se o bonde veio? / Mas cheio. // Se ganhei a vida? / Feridas. // Não vai dar? Deixa / estar". Tendo desaparecido das ruas, esse bonde veio, sem dúvida, de um poema de Drummond. Não menos drummondiano é Marcelo Sandmann (Criptógrafo amador. Curitiba: Medusa, 2006), representativo de todo um grupo de jovens poetas que, segundo a fórmula consagrada, estão assinalando a mudança de gerações. Sandmann é espírito antes satírico que irônico, além de revelar mais cultura literária do que é comum entre os companheiros que implicitamente estão à espera de que algum Rilke disponível lhes escreva mais uma vez a famosa carta.

Acresce que a leitura de Sandmann pressupõe leitores capazes de identificar as fontes de suas excelentes paródias: "Canta-me a cólera, ó Musa", quando narra na pauta similiépica a prisão de alguns vates em botão surpreendidos no ritual contemporâneo das drogas, agora com inflexões camonianas: "Ó, que não sei de nojo como o conte!", aventura grotesca correspondente às terríveis surpresas das antigas navegações: "Grânulos brancos de pequena ampola / Sobre caco de cristal esparzia. / Em que a pintura, a fim de recompô-la. / Do rosto ali mirar lesta soía". Mas, ai desgraça! eis que chegam de repente os esbirros, no meio de "paroxismos de intelecto gozo": "Três laços nós descemos, manietados. / Vestidos só c’orvalho madrugueiro, / Contritos, cabisbaixos, mui vexados. / Cercados por aqueles perdigueiros [...]"

Assim, a paródia lança descrédito sobre as verdades aceitas da época clássica quanto à superioridade hierárquica da epopéia sobre os demais gêneros, introduzindo o ridículo que Boileau, outra consagrado legislador do Parnaso, condenava nas comédias de Molière, da mesma forma por que os botequins sórdidos dos jovens poetas lançam um reflexo sarcástico sobre os salões e cafés literários de outros tempos, idealizados pelas histórias da literatura e dos costumes. Na poesia de Gilberto Nable (Percurso da ausência. Rio: 7Letras, 2006), a matéria é ainda a visão mitológica, transfigurada pela memória afetiva: "Eu fecho os olhos e vejo a casa / suspensa no ar feito um navio. / Ancorada na memória ela flutua, / quase sem náusea, ruido ou barulho" – evidente reminiscência involuntária de Manuel Bandeira, assim como o bonde de Antônio Brasileiro faz pensar no que circula nos versos de Carlos Drummond de Andrade.

Se a célebre ansiedade da influência leva muitos a escrever simplesmente porque tantos outros haviam escrito antes dele, é inegável que a criação literária não é jamais pura invenção, mas invenção carregada de memória, tecendo, afinal de contas, aquilo que conhecemos pelo nome de história das literaturas e dos gêneros.

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