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Wilson Martins

Literatura preciosa

O preciosismo é a exasperação da idéia literária, ao ponto de transformá-la em artifício, enquanto a exasperação do artifício, por sua própria lógica interna, resulta na preciosidade ridícula. Em outras palavras, o excesso de literatura conduz à subliteratura e à não-literatura. São desenvolvimentos que datam da mais alta antigüidade, se é que a idéia de literatura não surgiu, justamente, pelo preciosismo, passando por uma cura de emagrecimento através dos séculos, em busca da simplicidade clássica, com os periódicos retornos em sentido inverso. Sob a etiqueta de "barroco" houve quem afirmasse que se tratava de um "estilo de época" (o século 17), forma tautológica de enfrentar o problema.

Ora, o seiscentismo foi apenas o momento da plena maturidade preciosa, ou seja, a preciosidade ridícula, para lembrar a corrosiva caracterização molieresca. No Brasil, o exemplo supremo do preciosismo literário é a Música do Parnaso, de Manuel Botelho de Oliveira (1936 – 1711), agora recuperada em magnífica edição fac-similar com irretocável estudo crítico de Ivan Teixeira (Cotia, SP: Ateliê, 2005). Escrita "no apogeu da propagação da poesia seiscentista italiana e espanhola, mas publicada em 1705 [...] apropria-se deliberadamente do código poético instaurado por Camões, Góngora, Marino, Quevedo, John Lyly e Shakespeare, entre outros", esse estilo encontrou o seu esplendor, se quisermos, no século 17, mas não foi inventado por ele segundo a redução cronológica convencional. É um "estilo", sem dúvida, mas não um "estilo de época".

O ensaio de Ivan Teixeira investiga a poesia "como artefato verbal", descreve-lhe os "processos constitutivos da elocução ornada", envolvendo, entre outras, "a noção de metáfora, de agudeza e de conceito engenhoso" [...]. Por outro lado, "também entenderá a poesia como evento cultural, que partilha de discursos sociais específicos, com normas próprias de invenção, de escritura e de circulação". Em suma, Manuel Botelho de Oliveira (como, aliás, todos os poetas) "não escreveu para a posteridade, e sim para o seu tempo, procurando na comunicação com os contemporâneos a razão social de sua produção". Por isso, acentua Ivan Teixeira, devemos procurar na Música do Parnaso não apenas uma possível identidade com os nossos códigos, mas, ao contrário, os do seu universo mental, porque da percepção das próprias singularidades nasce a integração do leitor com a história, necessariamente impregnada de desiguais configurações.

Ou seja, exatamente o oposto das tresleituras que, a exemplo de Sílvio Romero, se perpetuaram na crítica brasileira, não apenas com relação a Botelho de Oliveira, mas também a Rocha Pita e à constelação de escritores, bons e maus, sem excluir o fenômeno, geralmente mal compreendido, das antigas academias literárias. Ele se orgulhava de ser o primeiro poeta natural do Brasil a publicar-se em livro, mas é preciso que nos entendamos, adverte Ivan Teixeira contra os lugares-comuns da crítica, "não há antecipação nacionalista em Botelho de Oliveira. Vivendo no Brasil, pensava como europeu, porque esse era o sistema de organização mental de seu tempo". Era natural do Brasil, mas português de fato e de direito, e também de cultura intelectual; "filho do Brasil", dizia ele, "tendo composto apenas trinta por cento de seu livro em português, aproximadamente. As partes em italiano e latim não chegam a cinco por cento. [...] O plurilingüismo de Música do Parnaso pode ser explicado pela convicção de que o castelhano era língua mais adequada ao exercício do verso naquele preciso momento de composição, como foram, em outros momentos, o grego, o latim e o italiano". Eis o que joga um pouco de água fria em nosso patriotismo retrospectivo: por força das vicissitudes históricas, o castelhano era, àquela altura, a língua de cultura na Península Ibérica, não sendo poucos os portugueses, e dos mais ilustres, que nela preferiram escrever. Há "clássicos" da literatura portuguesa escritos em espanhol, cabendo lembrar a tese de Fidelino de Figueiredo segundo a qual as duas nações libéricas se completam entre si em matéria de cultura, cada uma delas sendo rica naquilo em que a outra é pobre. São culturas complementares. Tese que, naturalmente, os patriotas de cada lado trataram de abafar.

Seja como for, é com Botelho de Oliveira que emerge, completamente caracterizada, inconfundível e definitiva, a consciência literária que se vinha lentamente constituindo desde o século 16. Ele não foi apenas "o primeiro filho do Brasil [que fez] pública a suavidade do metro", mas, também e acima de tudo, o instituidor de uma tradição literária em nosso país. Com efeito, não se trata de um poeta que desejasse comunicar aos leitores a sua produção, mas, sim, essencialmente o que poderíamos chamar, na terminologia de Benda, um clérigo, um escritor com a consciência de sua profissão e respondendo a uma teoria literária por assim dizer canônica. Sua primeira referência é, justamente, ao Monte Parnaso. "domicílio das musas", de onde se origina uma linhagem de poetas singularmente idêntica à de Gracián: Homero, Virgílio, Ovídio, Tasso, para terminar no "delicioso Marino", no "culto Góngora" que mereceu "extravagante estimação", e o vastíssimo Lope aplauso universal, no "Lusitano Apolo, o insigne Camões" e outros menores que preparam a sua própria inclusão na hierarquia. Assinalemos, de passagem, que a extravagante estima despertada por Góngora deve ser entendida na acepção que lhe dá o Dicionário de Morais, isto é, "que se afasta do uso, costume...", ou seja, estima extraordinária. (W.M. História da inteligência brasileira, I, 4.ª ed., 1992).

Vê-se que os inventores do barroco, que se atiraram aos estudos com o furor dos convertidos tardios, apenas retomaram para análises estilísticas sistemáticas uma tradição conhecida e condenada por seus excessos. Não me levem a mal: etimologicamente, inventor é quem descobre ou acha um tesouro oculto, embora, no caso, eu lhe acrescente alguma inocente picardia. Na verdade, se há um tropismo para o ridículo em todo estilo precioso, não é menos certo ser naturalmente preciosa a idéia mesma de literatura, contingência que escapa com freqüência aos oficiantes de outros credos.

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